Bolivianos lotam consulado em Corumbá para escolher novo presidente em eleição histórica. Cerca de 7,5 milhões de eleitores foram às urnas neste domingo (17) para eleger presidente, vice-presidente, senadores e deputados na Bolívia, em um pleito marcado pela possibilidade de um segundo turno inédito. Em Corumbá (MS), única cidade de Mato Grosso do Sul com votação, 12 mil bolivianos compareceram ao consulado, enfrentando filas e um processo eleitoral com cédulas impressas e urnas de papelão. A fronteira com o Brasil foi fechada para veículos, com segurança reforçada pelas Forças Armadas bolivianas. A votação reflete a crise econômica do país e a fragmentação da esquerda, com a direita liderando as pesquisas após 20 anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS).
A eleição ocorre em um momento de profunda transformação política. Após quase duas décadas de hegemonia do MAS, liderado por Evo Morales, a Bolívia enfrenta desafios econômicos que desgastaram o governo atual. A inflação atingiu 15% em abril, e a escassez de combustíveis e dólares impacta a população. Candidatos de direita, como Samuel Doria Medina e Jorge “Tuto” Quiroga, surgem como favoritos, prometendo reformas liberais para reverter a crise. O alto índice de votos indefinidos, cerca de 23%, e a dificuldade de prever o voto rural geram incerteza sobre o resultado.
Eleições bolivia – Foto: Jaderson Moreira/TV Morena
Cédulas impressas: Eleitores marcam sua escolha em papel, depositado em urnas de papelão.
Documentação: Carteira de identidade boliviana ou passaporte são obrigatórios para votar.
Segurança: Forças Armadas bolivianas controlam a fronteira, permitindo apenas passagem a pé.
Segundo turno: Caso nenhum candidato alcance 50% ou 40% com 10 pontos de vantagem, a votação segue para 19 de outubro.
Votação no consulado de Corumbá
Milhares de bolivianos residentes no Brasil cruzaram a fronteira a pé para votar em Corumbá, onde o consulado organizou o pleito com rigor. Cartazes com orientações sobre as regras eleitorais foram fixados na entrada, informando a necessidade de apresentar documentos oficiais. O processo, que começou às 7h10 e se estendeu até as 16h (horário de Brasília), transcorreu com filas longas, mas sem incidentes graves. Auditores eleitorais supervisionaram cada etapa, garantindo a transparência do voto em cédulas impressas, um contraste com as urnas eletrônicas brasileiras.
A votação em Corumbá reflete a importância da comunidade boliviana no Brasil, com 47 mil eleitores aptos em todo o país. Além de Corumbá, cidades como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Cáceres (MT) e Guajará-Mirim (RO) também receberam seções eleitorais. A organização do pleito no exterior foi elogiada por sua logística, apesar dos desafios impostos pela pandemia em anos anteriores, que exigiram medidas como divisão de horários para evitar aglomerações.
Crise econômica molda preferências
A Bolívia atravessa sua pior crise econômica em décadas, com queda nas exportações de gás natural e reservas internacionais reduzidas de US$ 15 bilhões em 2014 para US$ 2,8 bilhões em 2025. A inflação elevada, que alcançou 24% para alimentos, e a escassez de combustíveis geraram descontentamento com o governo do MAS. Samuel Doria Medina, empresário de 66 anos, propõe estabilizar a economia em 100 dias, cortando subsídios que consomem metade do déficit fiscal do país, estimado em 10%. Ele defende um modelo liberal, com incentivo ao empreendedorismo e investimento estrangeiro, especialmente no setor de lítio.
Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente entre 2001 e 2002, adota um discurso mais radical, prometendo romper relações com países como Venezuela e Cuba, enquanto mantém a Bolívia como parceira do Brics por laços comerciais com China e Índia. Sua retórica, inspirada no presidente argentino Javier Milei, inclui cortes drásticos nos gastos públicos. Ambos os candidatos lideram as pesquisas, com Medina oscilando entre 18% e 21,5% e Quiroga entre 19,6% e 24,45%, segundo levantamentos recentes.
Déficit fiscal: Subsídios a combustíveis representam quase metade do rombo de 10%.
Inflação: Alimentos subiram 24%, impactando o custo de vida da população.
Reservas: Queda drástica de US$ 15 bilhões para US$ 2,8 bilhões em uma década.
Lítio: Proposta de Quiroga inclui acordo com Chile e Argentina para exploração do mineral.
Fragmentação da esquerda boliviana
O Movimento ao Socialismo, que governa desde 2006, chega às eleições fragmentado. A divisão entre Evo Morales, ex-presidente inelegível por decisão judicial, e Luis Arce, atual presidente que desistiu da reeleição, enfraqueceu o partido. Morales, que enfrenta acusações judiciais e defende o voto nulo, perdeu aliados como Andrónico Rodríguez, presidente do Senado, que agora concorre pela Aliança Popular com apenas 5% a 7% das intenções de voto. Eduardo del Castillo, candidato do MAS, não ultrapassa 8,1% nas pesquisas.
A ruptura no MAS começou em 2023, quando Morales anunciou sua candidatura, desafiando Arce. A tensão escalou com protestos e bloqueios de rodovias, que deixaram quatro mortos em junho. A esquerda tenta se descolar da má gestão econômica de Arce, mas enfrenta dificuldades. Rodríguez, de origem quéchua, busca apoio nas regiões rurais, mas a campanha pelo voto nulo promovida por Morales pode fragmentar ainda mais os eleitores progressistas.
Divisão no MAS: Conflito entre Morales e Arce enfraquece a esquerda.
Voto nulo: Morales incentiva abstenção para deslegitimar o pleito.
Rodríguez: Aposta no voto rural, mas enfrenta resistência de antigos aliados.
Regras eleitorais e segundo turno
Na Bolívia, a eleição presidencial exige maioria absoluta (50% mais um voto) ou 40% com pelo menos 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado para vitória no primeiro turno. A possibilidade de um segundo turno, marcado para 19 de outubro, é inédita desde 2009, quando o sistema foi implementado. As pesquisas indicam que nenhum candidato deve atingir os critérios necessários, tornando o segundo turno quase certo, com Medina e Quiroga como favoritos.
A votação para o Parlamento, com 130 deputados e 36 senadores, também reflete a guinada à direita. A esquerda, que já teve maioria qualificada, deve conquistar apenas uma minoria de cadeiras. A incerteza sobre o voto rural, historicamente difícil de prever, e o alto índice de indecisos (23%) podem alterar o cenário, mas analistas apontam que o descontentamento econômico favorece a oposição.
Critérios para vitória: 50% mais um ou 40% com 10 pontos de vantagem.
Segundo turno: Previsto para 19 de outubro, caso necessário.
Parlamento: Direita deve dominar a Assembleia Legislativa Plurinacional.
Indecisos: 23% dos eleitores ainda não definiram seu voto.
Segurança e logística na fronteira
A fronteira entre Brasil e Bolívia, especialmente em Corumbá, foi fechada para veículos até as 20h, com passagem liberada apenas para pedestres. As Forças Armadas bolivianas reforçaram a segurança, enquanto a Polícia Federal brasileira manteve a fiscalização migratória. A logística do pleito no consulado de Corumbá foi eficiente, com filas organizadas e supervisão rigorosa. A votação em urnas de papelão, embora simples, é vista como confiável pelos eleitores, que confiam na auditoria eleitoral.
O fechamento da fronteira é uma prática comum em eleições bolivianas, mas gerou transtornos para o comércio local. Em Corumbá, a comunidade boliviana se mobilizou para garantir alta participação, reforçando a importância do voto no exterior, que representa 4,1% do eleitorado total do país. A eleição transcorreu sem registros de violência, apesar das tensões políticas internas.
Fronteira: Fechada para veículos, com liberação apenas para pedestres.
Segurança: Forças Armadas bolivianas e Polícia Federal brasileira atuam na região.
Participação: 47 mil bolivianos votam no Brasil, 12 mil em Corumbá.
