O governo do Benin, país na costa ocidental da África, iniciou um processo de concessão de cidadania para afrodescendentes globais. A medida visa a reparação histórica e a reconexão com a diáspora africana, especialmente para aqueles com antepassados que foram traficados no período colonial. A iniciativa ganhou visibilidade e já atraiu celebridades, como a cantora americana Ciara e a ativista brasileira Sueli Carneiro, que receberam o documento.
A estratégia do país africano, que foi o antigo Reino de Daomé, busca atrair talentos, investimentos e fomentar o turismo. A cidadania beninense pode ser solicitada virtualmente por meio da plataforma digital My Afro Origins, mediante o pagamento de uma taxa de 100 dólares, com um prazo de conclusão de cerca de três meses.
Comprovação de ascendência por teste genético
A falta de documentos e registros históricos de ancestrais escravizados no Brasil torna o teste de DNA uma ferramenta crucial. O consultor de vendas Clayton Muniz Filho, de São Paulo, é um exemplo; ele se interessou pela origem familiar e, sem registros, fez o exame que apontou cerca de 30% de ancestralidade na região do Benin.
O exame genético se tornou a principal via de comprovação para muitos, dado o apagamento de registros ao longo da história, como a queima de documentos fiscais de escravizados ordenada em 1890 pelo então ministro Rui Barbosa. Os testes custam em torno de R$ 300 no Brasil e são realizados por laboratórios que comparam o DNA do indivíduo com bancos de dados globais, identificando marcadores genéticos em comum com regiões específicas.
Os poucos registros que restaram sobre os antepassados escravizados são “muito simplórios”, mencionando apenas o porto de partida, o de chegada e o primeiro nome.
Motivadores filosóficos e a busca pela identidade
Para muitos brasileiros, as motivações para o pedido da nacionalidade beninense transcendem as questões práticas, como a possibilidade de moradia no país. O advogado Alessandro Vieira Braga, que auxiliou brasileiros no processo, destaca que o movimento é mais filosófico e cultural.
Ele descreve a busca como:
Um movimento de volta às origens.
Uma questão de orgulho cultural.
Identificação com o pan-africanismo.
A cidadania concedida a afrodescendentes não confere o direito de voto e participação em eleições, o que exige a cidadania plena após residência de no mínimo cinco anos no Benin. Embora o passaporte brasileiro tenha um ranking global superior ao do Benin, o valor simbólico e a reconexão histórica são os principais impulsionadores.
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Esforços de cooperação e o turismo da memória
A aproximação entre o Brasil e o Benin tem sido reforçada por encontros presidenciais e iniciativas culturais. Há esforços em curso para estabelecer uma rota de voo direto entre os dois países.
A nova rota aérea, que poderia ligar Salvador ou São Paulo a Cotonou em cerca de 6 horas, ainda não tem data para ser concretizada, dependendo de decisão das companhias aéreas. A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla do Benin de atrair o turismo da diáspora, focado em aspectos:
Culturais e religiosos.
Gastronômicos e históricos.
Reconexão com as origens africanas.
A cidade de Ouidah, um dos principais portos de tráfico de escravizados e lar da “Porta do Não Retorno”, é um ponto central nesse turismo da memória.
Demanda e custos iniciais
O sociólogo Alex Vargem avalia que o gesto do Benin toca em “feridas abertas” da escravidão, afetando a identidade de uma população brasileira onde 56% se declaram negros (pretos ou pardos). A falta de conhecimento sobre as origens específicas na África gera uma demanda reprimida por esse tipo de documento.
No entanto, Vargem pontua que a burocracia e os custos iniciais, incluindo a taxa de solicitação e o preço do teste de DNA, “já criam um primeiro funil”. O Benin, que tem um IDH baixo, abaixo da média da África subsaariana, tem registrado crescimento econômico, com o objetivo de que a diáspora contribua para o desenvolvimento do país, que possui cerca de 14 milhões de habitantes.
