sábado, 7 março, 2026
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Marcha do Orgulho Crespo de Curitiba completa dez anos e planta marca na Capital

A 10ª Marcha do Orgulho Crespo aconteceu no último sábado (15) em Curitiba, em uma edição marcada por memória, afirmação e potência coletiva. Celebrada no fim de semana que antecedeu o Dia da Consciência Negra, a marcha reuniu centenas de pessoas desde as primeiras horas da manhã no Prédio Histórico da UFPR, onde o acolhimento, as boas-vindas e as oficinas abriram a programação às 8h.

Logo cedo, o espaço da Beleza Negra ganhou destaque com tranças e penteados afro realizados por Neli Mumuki, Deby Tranças, Naomi Pereira, Luciene Cruz, Jô Afro Hair e pelas trancistas africanas Bininba Djata e Natália Ernesto Cá. Além disso, Daiane Santos contribuiu com pintura facial e maquiagem para pele negra, ampliando as possibilidades de expressão estética no local.

Na sequência, Berquelei Matheus promoveu um encontro de pais pretos com o tema “Quantos pais foram necessários até chegar sua vez de ser pai?”, enquanto Letícia Costa conduziu o Kilombo das mães pretas do Paraná, criando um espaço de escuta sensível e de intensa emoção.

Paralelamente, os tambores e a dança afro ocuparam os espaços da UFPR por meio da Oficina de Dança com Desyrêe Mathiew T. Delgado e Chica da Silva (mãe e filha), além da oficina de percussão com Diorlei Santos, ambos do Bloco Afro Pretinhosidade. A programação seguiu ainda com Samara Rosa e Vanessa Flores, responsáveis pelo espaço de Literatura Africana e Afro-Brasileira para as infâncias, complementado por um ambiente de desenho e pintura conduzido por José Abdias.

Também integraram as atividades a Profª Camila Silveira e sua equipe, representando o projeto Meninas e Mulheres nas Ciências/UFPR. Já o Prof. Edson Nunes apresentou a Cartilha CRESPURA e os Estudos sobre Dendê, ampliando a dimensão educativa da marcha.

Encerrando as ações da manhã, o Espetáculo Musical Bamberê, do Grupo Baquetá, tomou o grande palco da Praça Santos Andrade, preparando o público para o momento seguinte.

No início da tarde, o clima de construção comunitária se intensificou quando, às 13h, teve início a concentração na Boca Maldita. A partir dali, o público seguiu em caminhada pela região central até a Praça Santos Andrade, onde a marcha tomou a praça e as ruas em um cortejo conduzido pelo Bloco Afro Pretinhosidade — um dos momentos mais simbólicos e vibrantes do dia. A apresentação foi guiada por Miss Preta e Jean Guilherme e contou também com a presença da vereadora Giorgia Prates e da deputada federal Carol Dartora, figuras fundamentais para a história da Marcha do Orgulho Crespo, tanto por destinarem emendas para sua realização quanto por serem autoras do projeto de lei que oficializou a marcha no calendário de eventos da cidade.

As oficinas da manhã reuniram famílias, crianças e participantes de diferentes bairros e origens, fortalecendo vínculos e ampliando redes. Entre elas estava a moçambicana Beatriz Chisale, acompanhada dos filhos, que destacou que a marcha “valoriza a mulher negra, o cabelo crespo e a identidade negra em suas diferentes expressões”. Ela observou que, em Curitiba, ainda é difícil encontrar produtos específicos para cabelos crespos e ressaltou a importância da representatividade: “Tratar o cabelo crespo como um tipo tão legítimo quanto qualquer outro — liso, loiro ou ondulado — é parte essencial desse reconhecimento”. Para Beatriz, a mobilização se configurou como uma celebração marcada pela dança e por expressões tradicionais das culturas africanas: “As crianças vieram cedo para as oficinas, e mais tarde nos juntamos à marcha. Entre tranças, pinturas corporais e outras ações, vimos aqui a beleza das nossas raízes e da cultura africana”, afirmou.

Fortalecimento da identidadeJá Giovanna Mattioli, potiguar e moradora de Curitiba há três anos, participou pela primeira vez. Para ela, o encontro tem força política e afetiva. “A marcha é um espaço de resistência. Venho do Nordeste, onde a presença negra é muito maior, e aqui percebo como esse evento é essencial para dar visibilidade à população negra de Curitiba”, contou. Giovanna destacou ainda que a caminhada reforça pertencimento e cria laços comunitários: “Mostra que a gente não está sozinha. Isso fortalece nossa identidade”.

Ao longo da tarde e da noite, DJs Mitay e Vane MRQS animaram a programação, criando a atmosfera entre os shows. O Bloco Afro Pretinhodidade encerrou no palco a caminhada do cortejo da Marcha e Daniel Montelles abriu a tarde de shows, ambos. recebidos pelo público como grandes artistas da cena negra contemporânea. Três momentos, porém, sintetizaram o sentimento coletivo desta 10ª edição: o encontro entre MUV & Michele Mara, que trouxe à praça um groove pulsante e uniu performance, ancestralidade e conexão direta com o público; o show de Dow Raiz, que levou ao palco Sombra, do grupo SNJ, em participação especial, celebrando toda a força do rap; e a apresentação de Bia Ferreira, que encerrou o evento em um show de mais de uma hora e mandou o papo reto: “A gente está morrendo. A gente não quer foto preta no Instagram, não quer hashtag na sua rede social. A gente quer você fazendo alguma coisa. A polícia mata preto, pobre e indígena todos os dias. Se você é uma pessoa branca aliada, faça alguma coisa. Fale menos e faça mais.”

Ferramenta de cura, afeto e mobilizaçãoApós o evento, Michele Mara reforçou o significado do encontro: “A Marcha do Orgulho Crespo nunca foi só sobre cabelo. É sobre existir, resistir e lembrar que nossa história começa muito antes do que tentaram nos contar. É sobre caminhar junto, reconhecer nossa potência e criar condições para que as próximas gerações vivam com dignidade, liberdade e orgulho. A arte, aqui, é ferramenta de cura, de afeto e de mobilização”.

Dez anos depois, a Marcha do Orgulho Crespo segue mostrando que autoestima é política pública. Entre rodas de conversa, oficinas e atividades formativas, o dia foi de troca, cuidado, memória e futuro, uma construção coletiva que reafirma a potência da comunidade negra da cidade.

O evento reforça a urgência da luta antirracista. Pesquisas da UFPR e da PUC-SP demonstram que iniciativas culturais e comunitárias voltadas à identidade negra ampliam a sensação de pertencimento, fortalecem redes de apoio e contribuem diretamente para o desenvolvimento da autoestima. Estudos da UnB também indicam que espaços de celebração identitária impactam positivamente a saúde emocional de jovens e mulheres negras, reduzindo o isolamento e ampliando a percepção de representatividade no território urbano.
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