Final do século XIX. Curitiba (que na época se escrevia Curityba) ainda estava longe de ser uma metrópole. Tratava-se de uma cidade pacata, talvez até acanhada, que reunia cerca de 30 mil habitantes. Ainda assim, o município não passava incólume à influência cultural europeia. E uma prova disso foi a chegada às ruas da cidade de uma das maiores invenções humanas, também a primeira condução mecânica da história curitibana: a bicicleta. Uma novidade que coloca a capital paranaense como berço do ciclismo brasileiro. É que em 1895, há exatos 130 anos, foi criado o primeiro clube de ciclismo do país, sendo esse o marco inaugural do esporte no Brasil.
Bicicletas e scooters elétricas começam a ganhar as ruas e ciclovias de Curitiba
O primeiro modelo da “magrela”, como são carinhosamente chamadas as bikes, foi inventado em 1817 pelo barão alemão Karl Von Drais. Inicialmente, recebeu o nome de velocípede, só depois ficando conhecida como bicicleta. Curiosa e coincidentemente, foram justamente os imigrantes alemães um dos responsáveis por introduzir a novidade no Paraná. E isso uns bons anos antes do primeiro automóvel rodar por Curitiba, em 1903. E foram eles que criaram, em 1895, o primeiro clube de ciclistas de Curitiba (e também do Brasil), o Radfahrer Club Curityba.
O primeiro clube de ciclismo do Brasil
De acordo com artigo científico publicado em 2022, um grupo de jovens de origem alemã que organizou o clube. Seu nome, por sua vez, significaria algo simples, como Clube de Ciclistas.
A entidade organizava passeios e expedições em bicicletas, realizava piqueniques e promovia reuniões sociais. Com o passar do tempo, porém, pedalar foi se tornando também um esporte. Por isso, na primeira Olimpíada da era moderna, que ocorreu em Atenas, 1896, o Ciclismo debutou como competição no mundo. O clube de ciclistas, então, também passou a promover algumas corridas pela cidade.
Já no final do século XIX, então, as bicicletas começavam a fazer parte do cenário curitibano. Antes, só se vias pelas ruas da cidade cavalos de montaria, caleças, carruagens de aluguel, charretes particulares e bondes de mulas. Nessa mesma época, tornou-se costumeiro encontrar nas páginas dos jornais curitibanos anúncios de estabelecimentos que vendiam e consertavam bicicletas.
Uma novidade, aliás, que caiu no gosto das elites curitibanas. Elas celebravam a emergência de uma geração mais saudável, livre de hábitos considerados viciosos, como corridas de cavalo, brigas de galo, jogos de carta, bilhar e bailes fandangosos.
“Nota-se com satisfação que de um tempo para cá o nosso povo vae tomando gosto pelos divertimentos sportivos, caracterizando-se extraordinariamente o gosto pela bycicleta que tantos serviços tem prestado a educação physica de nossa mocidade. Actualmente já se vê muitos rapazes musculosos, robustos, com cores sadias e alegres. Essa tendência pela bycicleta que vae dia a dia se generalisando, da-nos consoladora esperança de ver em breve, surgir do meio dessa população amênica uma geração bella e vigorosa. Se desgraçadamente ainda alguns moços vão perder a saude, a intelligencia e até a própria mocidade nas innumeras casas de jogo que infesta a capital, outros – e estes felizmente em maior número – dedicam-se aos jogos athleticos, aos divertimentos sportivos que tem a grande vantagem de reunir o util ao agradável”, escreve o jornal A República, em publicação do dia 28 de novembro de 1901.
Ciclista em rua no Centro de Curitiba (Foto: Luís Pedruco)
Manifesto na Bicicletaria Cultural (Foto: Luís Pedruco)
Ciclista em rua no Centro de Curitiba (Foto: Luís Pedruco)
Da paixão pelas bicicletas ao amor pelo futebol
Depois do Radfahrer Club Curityba, outras agremiações começaram a surgir pela cidade, como o Club de Cyclistas Curitybano, que surgiu dentro de uma importante instituição da cidade na época, a Associação Curytibana dos Empregados no Commercio. Foi esse clube de ciclistas que passou a organizar, nos primeiros anos do século XX, as corridas de bicicletas. Devido à inexistência de um velódromo na cidade, as competições em Curitiba costumavam ocorrer no hipódromo da cidade, no Prado Velho. Esse era um importante espaço de desenvolvimento de diversos elementos da cultura física.
Já na segunda década do século XX, contudo, as corridas de bicicleta no hipódromo começaram a ter a companhia de outros esportes. E uma das atividades ofertadas nesses encontros, o futebol, começou a se destacar das demais, tornando-se a principal atração local. A exemplo do que ocorrera na França, então, as associações esportivas começaram a encorajar seus membros a se interessarem por outros esportes.
“Em 1913, se iniciou uma discussão para criar uma liga que intentava regular a prática do futebol, pois ele acontecia de forma bastante desordenada, gerando muitas confusões. Cabe destacar que as reuniões para a sistematização da liga ocorreram nas dependências da associação comercial, fato que possibilita indagar que o grupo de jovens, antes interessados no ciclismo, passou a se interessar de forma mais engajada pelo futebol, atenção que culminou com a criação da liga no ano de 1915”, apontam os autores do artigo “A emergência das corridas de bicicleta em Curitiba (1895-1913): idealizando pedagogias corporais”.
20 anos de cicloativismo em Curitiba
Além de 2025 marcar os 130 anos do surgimento do primeiro clube de ciclismo de Curitiba, também celebra-se 20 anos de cicloativismo na cidade. Quem conta isso é Fernando Rosenbaum, coordenador da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu.
“O ativismo cicloviário ganhou força no Brasil, com ciclistas paulistas convocando uma bicicletada em junho de 2002 como forma de ação direta contra a reunião do G8. Em Curitiba, o movimento se consolidou em novembro de 2005. Enquanto o prédio da reitoria da UFPR estava ocupado por estudantes, cerca de trinta ciclistas se reuniram no pátio antes de tomarem as ruas em bando. Foi em uma sexta-feira na hora do rush, e neste primeiro embate, somente uma bicicleta foi amassada por um motorista”, conta Rosenbaum, que é proprietário da Bicicletaria Cultural, localizada no Centro.
Ainda segundo Rosenbaum, ao longo das últimas décadas o cicloativismo na cidade floresceu com a produção de festivais socioculturais e o nascimento de praças de bolso. Além disso, recorda ele, também aconteceram diversas e grandiosas marchas de ciclistas pela cidade.
“O ativismo da ciclomobilidade em Curitiba transcendeu o objeto bicicleta, e sua ‘experiênciar’ se tornou uma linguagem artística, uma poética da mobilidade, forjando cultura, inspirando exposições, festivais, filmes, músicas e poesia. Após vinte anos, o movimento busca as novíssimas gerações, a remodelagem nas diversas novas formas de uso da bicicleta. E segue com ousadia e prudência, pelo direito a cidades mais criativas, mantendo o resguardo das vitorias sociais, inspirando novos ciclistas. Como disse Schopenhauer, ‘a ousadia é, depois da prudência, uma condição especial da nossa felicidade’”, pontua ainda Rosenbaum.
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