Esta sexta-feira (9) marca 100 anos do nascimento de Maria Olímpia Carneiro Mochel, a primeira mulher a ser eleita ao cargo de vereadora em Curitiba. Em 1947, aos 21 anos de idade, Mochel foi eleita para a câmara legislativa da capital paranaense com 436 votos pelo Partido Socialista Trabalhista (PST).
Maria Olímpia nasceu em 9 de janeiro de 1926, filha de Raul Carneiro, pediatra e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Anna Schweble, imigrante alemã. A jovem se formou na Escola Normal de Curitiba e se tornou professora.
Trabalhou por um tempo na Fábrica de Viaturas Hipomóveis de Curitiba, unidade industrial do exército — sendo demitida por se opor às condições trabalhistas do local. Fato esse que, ao lado da fama que Maria Olímpia cultivava por visitar os bairros mais pobres da capital e lutar contra a desigualdade na cidade, possibilitou o início de sua carreira política.
Foi na militância em que conheceu o então estudante de agronomia e membro do Comitê Municipal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Joaquim Mochel, com quem, no futuro, se casaria.
Eleição e atuação
Somente três mulheres concorriam à candidatura em 1947. Maria Olímpia foi a única a ser eleita e se tornou a primeira mulher a ocupar uma das então 20 cadeiras na Câmara Legislativa de Curitiba. No mesmo ano em que se tornou vereadora, se casou com Joaquim Mochel.
Durante (e previamente à) sua atuação, Maria Olímpia foi monitorada pelo Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), além de sofrer fortes ataques através da imprensa. Mesmo assim, não demonstrou hesitação ao criticar o poder público.
Em um de seus mais famosos documentos, “Manifesto ao Povo de Curitiba”, a vereadora colocou em cheque as decisões do então prefeito Lineu Ferreira do Amaral, dizendo que o político “beneficiava somente os granfinos, e não se peja(va) de decretar ilegalmente o aumento das tarifas de transportes coletivos, prejudicando a população pobre e sobrecarregando os orçamentos miseráveis dos que trabalham, já tão sacrificados com os preços dos gêneros de primeira necessidade, como a carne, o café, o pão, etc. (…) A Companhia Força e Luz de Curitiba (então responsável pelo transporte coletivo) canaliza lucros que são enviados aos EUA, e não faz um melhoramento nas linhas: os bondes têm 50 anos de idade e os ônibus, 20. A Companhia não compra nenhum material novo e os seus operários continuam sendo explorados com salários de fome”.
Maria Olímpia também estava ligada a um dos episódios mais emblemáticos de guerrilha rural do Paraná; a “Revolta do Quebra-Milho”, na cidade de Porecatu, no Norte do Estado. A vereadora, junto a seu marido e outras personalidades importantes da militância paranaense, prestaram auxilio aos guerrilheiros. De acordo com a Câmara de Curitiba, Maria Olímpia formou, junto a seus aliados, grupos de estudos para coagir os colonos a defenderem a terra em que trabalhavam.
Vida no Maranhão
Maria Olímpia e sua família se radicaram em São Luís em 1957, onde a agora ex-vereadora ingressou na primeira turma do curso de Medicina da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) — escolhendo a psiquiatria como especialidade. Teve cinco filhos durante sua vida. No dia 25 de janeiro de 2008, aos 82 anos, Maria Olímpia faleceu.
Homenagem
No dia 6 de março de 2023, a Escola do Legislativo foi batizada com o nome de Maria Olympia Carneiro Mochel, em antecipação ao dia internacional da mulher. Estava presente na solenidade a médica Alice Mochel, filha da vereadora. O equipamento tem como objetivo a capacitação técnica e profissional de servidores e parlamentares da Câmara Municipal de Curitiba.
A trajetória da política, professora e médica é emblemática da luta feminina em espaços tradicionalmente dominados pela masculinidade. Até hoje Maria Olímpia é um símbolo de resistência em um tempo hostil à feminilidade. Curitiba só volta a eleger uma mulher para o cargo em 1960, com a segunda vereadora da capital paranaense, Maria Clara Brandão Tesseroli.
O post A primeira vereadora de Curitiba faz 100 anos nesta semana; conheça a sua trajetória apareceu primeiro em Bem Paraná.
