O montanhismo é um esporte apaixonante. Tão apaixonante que, não raro, envolve extremos, com aquela coisa de “ame-o ou deixe-o”. E quando alguém não só se apaixona pelo esporte, mas também se deixa levar por essa paixão, loucuras podem acontecer. E essas “loucuras” também envolvem feitos extraordinários, um dos mais incríveis deles realizados por um curitibano.
Trata-se de Jhonatan Carvalho, que tem 37 anos de idade e é músico e militar da Aeronáutica. Nascido em Curitiba, mas criado em Antonina (cidade onde fica o majestoso Pico Paraná, maior montanha de toda a região Sul do Brasil), ele realizou a maior travessia entre montanhas do Brasil, que chamou de Caveira Charlie Charlie. Na aventura, que encarou sozinho, atravessou quase toda a Serra do Mar paranaense ao longo de oito dias, percorrendo 130 quilômetros e passando por 77 cumes diferentes.
A jornada teve início no dia 25 de julho de 2023, saindo do Capivari Menor (também conhecido como o Morro das Antenas), em Campina Grande do Sul. E terminou no dia 1º de agosto daquele ano, tendo como última parada o Morro do Canal, em Piraquara.
No caminho, ele passou pela Serra da Jaguatirica (onde ficam os Capivaris), do Ibitiraquire (onde estão picos icônicos como o Paraná, Siririca e Caratuva), da Farinha Seca (que fica num dos lados da Estrada da Graciosa), do Marumbi e da Melança (onde fica o Canal). Sua única companhia, ao longo de alguns dias, foram dois cachorros, enquanto sua família o foi visitar numa ocasião, durante um acampamento próximo da Graciosa – mas a travessia foi realizada de forma autossuficiente, ressalte-se.
A jornada que levou a esse feito extraordinário, entretanto, começou anos antes.
Cenas da Travessia Caveira Charlie Charlie (Foto: Arquivo pessoal)
Cenas da Travessia Caveira Charlie Charlie (Foto: Arquivo pessoal)
Cenas da Travessia Caveira Charlie Charlie (Foto: Arquivo pessoal)
Cenas da Travessia Caveira Charlie Charlie (Foto: Arquivo pessoal)
Cenas da Travessia Caveira Charlie Charlie (Foto: Arquivo pessoal)
De músico a militar, e de militar a atleta
Conhecido como Caveira (apelido que recebeu tanto por ter feito um curso de Operações Especiais no BOPE da Polícia Militar como por ser magro), Jhonatan é nascido em Curitiba, mas gosta de ressaltar que é antoninense de coração. Isso porque ele foi criado na cidade do litoral do Paraná e lá também começou a carreira musical, tocando na tradicional Filarmônica Antoninense, escola que existe desde 1975. E foi através da música, também, que ingressou na carreira militar, como saxofonista da Banda da Aeronáutica.
“Eu fui criado lá, morei em Antonina. Ficava olhando as montanhas de lá, sempre vendo aquela silhueta do Ibitiraquire, imaginando se daria para andar em cima dela”, recorda ele.
Curiosamente, entretanto, a relação com o montanhismo acabou surgindo só mais tarde na vida de Jhonatan. Quando já estava na Aeronáutica, foi convidado por um amigo para participar de uma corrida de rua. Se saiu tão bem que acabou ficando em primeiro lugar em sua categoria e em sétimo lugar no ranking geral, sendo então aconselhado a investir na carreira como corredor.
E foi exatamente isso o que ele fez, até 2014. Isso porque naquele ano, quando fazia um curso na Aeronáutica, teve de subir sua primeira montanha, o Morro do Anhangava, em Quatro Barras. Gostou e não demorou para descobrir que ele poderia não só subir montanhas, mas também correr nelas, unindo suas duas paixões no esporte: a corrida e o montanhismo.
“Saindo desse curso da Aeronáutica, gostei e comecei a subir algumas montanhas. Fui pro Marumbi, voltei pro Anhangava… E em 2014 mesmo tive a oportunidade de fazer outro curso operacional, no Corpo de Bombeiros, que é o curso de socorro em montanha. Ali tive um contato maior com a escalada mesmo, conheci mais montanhas, e dali em diante não parei mais”, relata.
A ideia de fazer a travessia mais longa do Brasil
Nos anos seguintes, o Caveira começou a explorar a Serra do Mar ao lado de outro ultramaratonista, Daniel Meyer. E fazendo as montanhas pelo Paraná, conheceram algumas lendas do esporte local, como Elcio Douglas e Jurandir Constantino, idealizadores da Travessia Alpha Crucis, uma união de três Serras que percorre 61 cumes na Serra do Mar.
“A Alpha Crucis saía do Bairro Alto, em Antonina, e ia até o Morro do Canal. Daí eu e o Daniel começamos a pensar em interligar, juntar o Capivari, fazendo uma coisa maior. Mas a gente ficava pensando e morreu essa ideia… Isso até 2023, quando tive a ideia de voltar para fazer isso daí. Convidei ele, mas ele estava com lesão, em momento de competição. Tive que ir sozinho. Decidi em junho, avisei minha esposa e comecei a me preparar”, conta Jhonatan.
Algumas semanas antes de fazer a travessia, então, ele já foi para dentro do mato e “criou” uma trilha nova, interligando a Serra do Capivari com a do Ibitiraquire através do pico Guaricana.
“É uma trilha de aproximadamente cinco quilômetros e abri ela em quatro dias e fitei para poder passar. Era o único trecho inédito da travessia, que eu precisei abrir. O resto eram trilhas consolidades, caminhos que eu já conhecia.”
23 mil metros entre descidas e subidas
A ideia de fazer a travessia entre julho e agosto tem motivo. No inverno, embora os dias sejam mais cursos, o tempo é mais estável e também o calor “castiga” menos durante a caminhada. Algo importante a se pensar, já que Jhonatan teria não só de percorrer mais de 130 quilômetros, mas também de subir 12 mil metros e descer outros 11 mil, aproximadamente, ao longo de toda a travessia (os chamados desnível positivo e negativo).
Os momentos mais marcantes, conta ele, foram aqueles em que encontrou pessoas pelo caminho, o que aconteceu no Taipabuçu, no Pico Paraná, no Mãe Catira e no Marumbi. “São oito dias falando só com você mesmo, né? Então foi marcante quando encontrei outras pessoas”, explica. “Também no quinto ou sexto dia minha família descobriu onde eu estava acampado e foram lá de surpresa, me dar um abraço e conversar um pouco.”
A inacreditável história dos cães companheiros
Além disso, dois cachorros o acompanharam ao longo de parte da jornada. Ele os encontrou no quarto dia de caminhada, num lugar chamado Gargante 235, que fica um pouco para cima da Estrada da Graciosa, num vale já no fim da Serra do Ibitiraquire (atravessando-se a estrada começa outra serra, a da Farinha Seca). Um deles o seguiu até o Morro do Sete, na Farinha Seca, e outro foi ainda mais longe, até o Marumbi.
No Marumbi, porém, Jhonatan optou por prender o cachorro, com medo que ele se ferisse em algum dos paredões daquele conjunto montanhoso. Deixou-o na casa de um amigo e depois voltou para buscá-lo. Mas o animal acabou não se adaptando à vida num apartamento. Foi quando ele procuou um amigo, Délcio, dono da Fazenda Forquilha, que fica perto da Serra do Ibitiraquire, para pedir que cuidasse do seu parceiro de travessia.
“Eu mandei mensagem para ele, com uma foto do cachorro, e contei que ele e outro cão tinham feito parte da travessia comigo. Quando ele abriu a mensagem, imediatamente respondeu: ‘cara, esse cachorro é nosso!’ Ele e o outro cachorro que me acompanharam estavam perdidos há dez dias. Viram um veado passando, foram atrás e não voltaram mais. Depois, conseguimos recuperar o segundo cão lá no trevo do São João, em Morretes.
“Esse foi um momento muito marcante também, porque eu passei a conversar com os cachorros em vez de conversar comigo mesmo. Um deles me seguiu até o Morro do Sete, enquanto o outro eu deixei na casa de um amigo no Marumbi. Depois, cheguei a adotar o que tinha deixado no Marumbi, mas ele não se adaptou bem à vida num apartamento. Então mandei mensagem pro Délcio, dono da Fazenda Forquilha, que fica perto da Serra do Ibitiraquire, para doar ele. E ele tinha perdido dois cachorros, que eram justamente os que fizeram comigo parte da travessia. Depois, conseguimos recuperar o outro lá no Trevo do São João, em Morretes”, recorda. “Fui dor o cachorro e acabei, na verdade, dovlendo eles lá”.
Caveira com um dos cachorros que o acompanhou em parte da travessia (Foto: Arquivo pessoal)
Alimentação e dormitório: como a travessia foi possível
Para a travessia, Jhonatan utilizou uma mochila cargeueira. Nela, levou uma segunda pele, uma calça de segunda pele, uma meia e uma touca, que eram as roupas de dormir (a roupa de caminhada, por sua vez, foi a mesma desde o primeiro dia). Para os momentos de descanso, carregou uma rede com cobertura, que virou seu dormitório. E também precisou carregar toda a comida que consumiu nos oito dias de caminhada, enquanto a água foi sendo reabastecida em diversos pontos pelo caminho.
“Pro jantar, levei sachês de comida liofilizada vegana, que complementava com sachês de sopa vono e um cup noodles para dar um gosto. No café da manhã, café solúvel com leite, comia um clube social e duas bisnagas com maionese enroladas naqueles rap 10. E durante a caminhada eu enchia os bolsos de paçoca e torron e comia quando dava fome”, diz ele, explicando ainda que tomava uma cápsula de sal pela manhã, outra de tarde e mais uma de noite, para repor eletrólitos.
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