segunda-feira, 9 março, 2026
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A revolução sangrenta do Oscar 2026: o ano em que o terror devorou a academia

Se você acordou no dia 22 de janeiro esperando a lista habitual de biopics poeirentas e dramas de época comportados, provavelmente sentiu um arrepio na espinha ao ler os indicados ao Oscar 2026. Não foi um erro de digitação nem um delírio coletivo: o terror, aquele gênero historicamente relegado às categorias técnicas ou a um prêmio de consolação por roteiro original, arrombou a porta principal do Dolby Theatre.

A pergunta “tem algum filme de terror no Oscar?” deixou de ser uma busca por agulha no palheiro para se tornar a manchete da edição. Com Pecadores (Sinners) de Ryan Coogler liderando a corrida e o Frankenstein operístico de Guillermo del Toro logo atrás, 2026 marca o momento exato em que a Academia finalmente parou de fingir que não gosta de sentir medo.

 

O fim do “terror elevado” e a vitória do monstro

Durante a última década, críticos e votantes usaram o termo “terror elevado” (elevated horror) como uma muleta intelectual para justificar gostar de filmes como Hereditário ou A Bruxa. Era como se dissessem: “Gostamos deste aqui porque ele é um drama disfarçado, não um filme de susto barato”.

O Oscar 2026 implodiu essa pretensão.

Pecadores, a potência dirigida por Ryan Coogler e estrelada por Michael B. Jordan, não está pedindo desculpas por ser um filme de vampiros. Pelo contrário, ele abraça o gênero com garras afiadas. Ao receber um número recorde de indicações — incluindo Melhor Filme e Melhor Direção —, a obra prova que o horror de raiz, aquele que mistura folclore, tensão racial e vísceras, tem tanto mérito artístico quanto qualquer drama de guerra.

Não é mais sobre o horror ser uma metáfora “segura” para o luto; é sobre o horror ser cinema puro, visceral e popular. Coogler conseguiu o que parecia impossível: fazer a Academia votar em massa num filme que, em outros tempos, seria descartado como “filme de pipoca para outubro”.

 

Gótico, prático e artesanal

Enquanto Coogler trouxe o horror para o solo americano contemporâneo, Guillermo del Toro fez o que faz de melhor: transformou o monstro em poesia. O seu Frankenstein (Netflix) é a outra face dessa moeda de ouro sangrenta.

Aqui, o foco sai da adrenalina e vai para o “craft” — o artesanato cinematográfico. As indicações massivas para Design de Produção, Maquiagem e Trilha Sonora não são surpresa, mas a presença firme na categoria de Melhor Filme sinaliza um respeito profundo pela tragédia do monstro.

O que une Pecadores e Frankenstein nesta safra não é apenas o tema sombrio, mas a rejeição ao CGI preguiçoso. Ambos os filmes apostaram pesado em efeitos práticos. Quando vemos a Criatura de Jacob Elordi ou os vampiros de Coogler, estamos vendo maquiagem protética, iluminação expressionista e atuações físicas exaustivas. A Academia, composta majoritariamente por profissionais da indústria, reconheceu o esforço técnico titânico necessário para criar pesadelos tangíveis.

Outras sombras na lista

Vale notar que a festa não para nos dois gigantes.

  • Bugonia: O novo filme de Yorgos Lanthimos, com sua mistura de sci-fi paranoica e horror psicológico, também garantiu seu lugar ao sol (ou à sombra), provando que o estranho e o perturbador viraram o novo normal.
  • Weapons: O sucessor espiritual de Barbarian, dirigido por Zach Cregger, conseguiu furar a bolha nas categorias de atuação — um feito raríssimo para um filme de terror puro-sangue.

Nota rápida de contexto: Se você estava procurando por A Noiva! (The Bride!), de Maggie Gyllenhaal, segure a ansiedade. O filme teve sua estreia movida para março de 2026, o que o torna elegível apenas para a cerimônia do ano que vem. O terror tem fôlego para mais uma temporada.

 

Por que agora?

O que mudou? A demografia. A diversificação do quadro de votantes da Academia, iniciada agressivamente após 2016, baixou a idade média e trouxe uma geração que cresceu venerando John Carpenter e Wes Craven, não apenas John Ford.

Esses novos membros entendem que o terror é, frequentemente, o gênero que melhor captura a ansiedade do zeitgeist. Num mundo pós-pandêmico, instável e ruidoso, filmes que externalizam nossos medos internos não são “fuga da realidade” — são documentários emocionais.

Em 1992, O Silêncio dos Inocentes venceu tudo e foi tratado como uma anomalia, um “thriller” que teve permissão para ganhar. Em 2018, Corra! venceu Roteiro Original, mas perdeu o prêmio principal. Em 2026, a barreira caiu. Não há mais “filme de Oscar” versus “filme de terror”. Há apenas cinema.

Se Pecadores ou Frankenstein levarão a estatueta principal na noite da cerimônia ainda é uma incógnita, mas a vitória já aconteceu. O monstro saiu debaixo da cama e subiu no palco. E, desta vez, ninguém vai conseguir acender a luz para fazê-lo desaparecer.

FALANDO NISSO
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