sexta-feira, 6 março, 2026
InícioInternacionalAfrodescendentes no exterior acessam cidadania do Benin em busca de reparação histórica

Afrodescendentes no exterior acessam cidadania do Benin em busca de reparação histórica

O governo do Benin, país na costa ocidental da África, iniciou um processo de concessão de cidadania para afrodescendentes globais. A medida visa a reparação histórica e a reconexão com a diáspora africana, especialmente para aqueles com antepassados que foram traficados no período colonial. A iniciativa ganhou visibilidade e já atraiu celebridades, como a cantora americana Ciara e a ativista brasileira Sueli Carneiro, que receberam o documento.

A estratégia do país africano, que foi o antigo Reino de Daomé, busca atrair talentos, investimentos e fomentar o turismo. A cidadania beninense pode ser solicitada virtualmente por meio da plataforma digital My Afro Origins, mediante o pagamento de uma taxa de 100 dólares, com um prazo de conclusão de cerca de três meses.

Comprovação de ascendência por teste genético

A falta de documentos e registros históricos de ancestrais escravizados no Brasil torna o teste de DNA uma ferramenta crucial. O consultor de vendas Clayton Muniz Filho, de São Paulo, é um exemplo; ele se interessou pela origem familiar e, sem registros, fez o exame que apontou cerca de 30% de ancestralidade na região do Benin.

O exame genético se tornou a principal via de comprovação para muitos, dado o apagamento de registros ao longo da história, como a queima de documentos fiscais de escravizados ordenada em 1890 pelo então ministro Rui Barbosa. Os testes custam em torno de R$ 300 no Brasil e são realizados por laboratórios que comparam o DNA do indivíduo com bancos de dados globais, identificando marcadores genéticos em comum com regiões específicas.

Os poucos registros que restaram sobre os antepassados escravizados são “muito simplórios”, mencionando apenas o porto de partida, o de chegada e o primeiro nome.

Motivadores filosóficos e a busca pela identidade

Para muitos brasileiros, as motivações para o pedido da nacionalidade beninense transcendem as questões práticas, como a possibilidade de moradia no país. O advogado Alessandro Vieira Braga, que auxiliou brasileiros no processo, destaca que o movimento é mais filosófico e cultural.

Ele descreve a busca como:

Um movimento de volta às origens.

Uma questão de orgulho cultural.

Identificação com o pan-africanismo.

A cidadania concedida a afrodescendentes não confere o direito de voto e participação em eleições, o que exige a cidadania plena após residência de no mínimo cinco anos no Benin. Embora o passaporte brasileiro tenha um ranking global superior ao do Benin, o valor simbólico e a reconexão histórica são os principais impulsionadores.

Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Ciara (@ciara)

Esforços de cooperação e o turismo da memória

A aproximação entre o Brasil e o Benin tem sido reforçada por encontros presidenciais e iniciativas culturais. Há esforços em curso para estabelecer uma rota de voo direto entre os dois países.

A nova rota aérea, que poderia ligar Salvador ou São Paulo a Cotonou em cerca de 6 horas, ainda não tem data para ser concretizada, dependendo de decisão das companhias aéreas. A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla do Benin de atrair o turismo da diáspora, focado em aspectos:

Culturais e religiosos.

Gastronômicos e históricos.

Reconexão com as origens africanas.

A cidade de Ouidah, um dos principais portos de tráfico de escravizados e lar da “Porta do Não Retorno”, é um ponto central nesse turismo da memória.

Demanda e custos iniciais

O sociólogo Alex Vargem avalia que o gesto do Benin toca em “feridas abertas” da escravidão, afetando a identidade de uma população brasileira onde 56% se declaram negros (pretos ou pardos). A falta de conhecimento sobre as origens específicas na África gera uma demanda reprimida por esse tipo de documento.

No entanto, Vargem pontua que a burocracia e os custos iniciais, incluindo a taxa de solicitação e o preço do teste de DNA, “já criam um primeiro funil”. O Benin, que tem um IDH baixo, abaixo da média da África subsaariana, tem registrado crescimento econômico, com o objetivo de que a diáspora contribua para o desenvolvimento do país, que possui cerca de 14 milhões de habitantes.

FALANDO NISSO
- Advertisment -

Em Alta