sábado, 7 março, 2026
InícioParanáVelas e orações: homenagens no Finados vão muito além

Velas e orações: homenagens no Finados vão muito além

O 2 de novembro celebra o Dia de Finados, o feriado que leva milhões de paranaenses a cemitérios, igrejas e espaços religiosos para homenagear quem partiu. Embora a data mantenha seu caráter de reflexão e saudade, novas formas de celebração vêm ganhando força.A visita aos túmulos continua sendo o principal ritual para a maioria das famílias. Flores e velas seguem como as homenagens mais comuns, mas as particularidades regionais dão novos rumos à tradição: bandeiras de times decoram jazigos, cataventos coloridos enfeitam cemitérios e flores artificiais garantem que as cores resistam ao clima seco. O tradicional ainda vive mas vem ganhando novas camadas.As formas de recordar quem partiu se reinventam, buscando aproximar vivos e ausentes por meio de gestos cada vez mais pessoais e simbólicos.A tecnologia, que ganhou força durante a pandemia, consolida-se como uma nova forma de manter viva a memória de quem partiu. “As homenagens virtuais, antes um movimento tímido, hoje são uma realidade estabelecida”, afirma Roberto Toledo, diretor de operações e sustentabilidade do Grupo Zelo. Plataformas de memoriais online permitem acender velas virtuais, deixar mensagens e compartilhar lembranças, tornando-se um refúgio emocional para quem está distante.A novidade é a integração entre o físico e o digital, uma ponte entre passado e presente. QR Codes instalados nos jazigos direcionam familiares e amigos para biografias, fotos e vídeos dos homenageados, transformando a visita ao cemitério em uma experiência interativa e afetiva.Mais que uma tendência tecnológica, essa nova forma de recordar reflete uma mudança geracional na maneira de lidar com o luto. Para muitos jovens, a saudade também se expressa nas redes sociais, em postagens que misturam emoção e cotidiano. Fotos antigas ganham legendas de gratidão, playlists são dedicadas à memória de quem se foi, e vídeos reúnem histórias e risadas como forma de eternizar a presença.O luto, antes vivido em silêncio, encontra agora novos espaços de expressão digitais, coletivos e permanentes. É a tentativa contemporânea de transformar a ausência em presença, conectando lembrança, afeto e tecnologia.

Homenagens personalizadas

O Cemitério Parque São Pedro, no Umbará, em Curitiba, também propõe uma forma mais afetiva e personalizada de viver o Dia de Finados. Mais que flores e visitas aos túmulos, muitas famílias têm buscado gestos que reflitam a história e a personalidade dos entes queridos. Entre as práticas que vêm ganhando espaço estão a escrita de cartas ou mensagens pessoais, deixadas nos jazigos ou guardadas em locais especiais.Álbuns de fotos e vídeos, que reúnem lembranças e histórias. Plantio de flores ou árvores, como símbolo da continuidade da vida. Memoriais digitais, onde familiares compartilham fotos e mensagens em páginas online. Ações solidárias em nome da pessoa homenageada, transformando a saudade em amor ao próximo. Encontros familiares com músicas e refeições simbólicas, que fortalecem os laços afetivos e celebrações ecumênicas ou rituais espirituais, que acolhem a fé de diferentes tradições.Outro cemitério de Curitiba, o Cemitério Vertical propõe uma nova maneira de viver o Dia de Finados. Com o tema “Memórias Eternas: Amor que atravessa o tempo”, o espaço oferece uma programação que mistura fé, arte e acolhimento. O ponto alto será o Tributo Atemporal, realizado ao entardecer, quando luzes e músicas convidam à contemplação e à celebração da vida de quem partiu.Além do tributo, outras atividades reforçam a ideia de Finados como experiência coletiva e simbólica. O Coral Vertical, formado por colaboradores do cemitério, transforma a música em ponte entre passado e presente. A Feira Social Pet e ações de cuidado à comunidade, como aferição de pressão e orientações de saúde, promovem solidariedade e interação social. Já o Espaço Criança, com oficinas de pulseiras e mini álbuns, permite que os pequenos também participem de forma lúdica e afetiva, aproximando gerações na lembrança dos entes queridos.

Um ritual de amor vivido todos os anos em Curitiba

Para muitos, o Finados é um momento de saudade. Para Maria da Graça Simão, 67 anos, é também um ritual de amor, gratidão e conexão com suas raízes. “Os cemitérios, ou campos santos, não me amedrontam. Aquela calma tão particular me conecta com algo maior, com minha história e ancestralidade”, diz.Desde a infância, ela visita o Cemitério São Francisco, onde estão sepultados seus antepassados libaneses e italianos. O costume, herdado dos pais e tios, se transformou em compromisso pessoal hoje, ela é quem cuida dos dois jazigos da família. “Foi algo natural, depois que os mais velhos se foram. Toda semana alguém limpa as lápides e coloca cedro nos vasos”, conta.No Dia de Finados, o ritual começa cedo, ela conta. Maria da Graça compra flores frescas crisântemos amarelos para os maternos, palmas e antúrios para os paternos e percorre as alamedas do cemitério com os arranjos nos braços.“É um gesto de amor e respeito. Sinto-os mais perto de mim”, afirma.No caminho, ela deixa flores para antigos amigos, para o primeiro chefe e até para o poeta curitibano Emílio de Menezes, “tão aclamado no passado, hoje quase esquecido”. O percurso termina no jazigo da família, “bem lá no alto, pertinho do céu”, onde reza e conversa em silêncio com os que partiram.“Às vezes choro, mas também agradeço a Deus por poder prestar essa homenagem”, diz.Antes de ir embora, ela repete outro costume: passar na Sorveteria do Gaúcho, onde pede ameixa e maracujá os sabores da juventude.“É um jeito de encerrar o dia com leveza”. Finados, para mim, é quando o amor se faz mais presente ela completa.

Celebrações pelo mundo

Essa busca por novos significados reflete uma mudança na relação do brasileiro com o luto. Para além da perspectiva majoritariamente cristã, que marca a data com missas e cultos, há uma valorização crescente de rituais mais personalizados e de abordagens plurais.Cerimônias de matriz africana, rituais indígenas e outras tradições espiritualistas ganham espaço, reforçando a diversidade cultural na forma de lidar com a morte.Enquanto no Brasil o Dia de Finados é marcado pela reflexão e pela saudade silenciosa, outros países celebram a data de formas mais festivas e coloridas.No México, por exemplo, o Dia de Los Muertos dura três dias e reúne familiares e amigos em festas repletas de altares com fotos, objetos pessoais, comidas típicas e caveiras coloridas, símbolos do respeito e da alegria pela memória dos antepassados.Na Guatemala, imensas pipas coloridas são lançadas aos céus, representando as almas dos mortos e afastando maus espíritos, enquanto os haitianos misturam rituais católicos e vodu, com cantigas e tambores que evocam os ancestrais.No Japão, durante o Festival Obon, as famílias limpam as lápides e espalham lanternas para guiar o retorno simbólico dos espíritos. Já na Espanha, o Dia de Todos os Santos combina visitas aos cemitérios com refeições típicas, como o doce Hueso de Santos, celebrando a memória de forma festiva.Apesar das diferenças culturais e históricas, todas as celebrações têm algo em comum: o desejo de homenagear aqueles que partiram e manter viva a lembrança.

Nicole Salomón, especial para o Bem Paraná, sob supervisão de Mario Akira
O post Velas e orações: homenagens no Finados vão muito além apareceu primeiro em Bem Paraná.

FALANDO NISSO
- Advertisment -

Em Alta