Depois de ter mais de 90% de suas construções destruídas total ou parcialmente por um tornado de categoria F4 no dia 7 de novembro de 2025, Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, começa a transformar o cenário de destruição em um processo de reconstrução.
Construção de casas para as famílias mais afetadas pelo tornado em Rio Bonito do Iguaçu tem início
A retomada dos serviços públicos, o atendimento às famílias atingidas e o início de um amplo planejamento urbano marcam uma nova etapa para a cidade, que ainda convive com as marcas do desastre, mas já projeta o futuro.
O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR) coordenou, de forma integrada com a prefeitura, o Governo do Estado, a Defesa Civil e entidades técnicas, uma das maiores mobilizações voluntárias de engenharia já realizadas no município.
Segundo o prefeito de Rio Bonito do Iguaçu, Sezar Bovino, a fase emergencial foi superada e o foco agora está totalmente voltado à reconstrução. Ele afirmou que todas as residências parcial ou totalmente destruídas já foram mapeadas e incluídas no planejamento municipal. “Hoje podemos dizer que estamos cem por cento na fase de reconstrução, tanto das casas parcialmente destruídas quanto daquelas que tiveram perda total”, afirmou.
A reconstrução da infraestrutura pública também avança. Escolas, creches, unidades da APAE, CRAS, centro cultural, rodoviária e o prédio da prefeitura sofreram danos e exigem novos projetos e reorganização dos espaços. Sezar explicou que esse trabalho envolve decisões técnicas e planejamento urbano. “Estamos reconstruindo toda a estrutura pública do município. Esse é um trabalho técnico, que envolve projetos, licitações e uma nova organização dos espaços”, completou.
Na área da saúde, o atendimento está normalizado e não há mais pessoas internadas em decorrência do tornado, embora o acompanhamento siga para quem ainda enfrenta consequências físicas e emocionais. Já a educação municipal ocorre de forma provisória em Laranjeiras do Sul, até que os prédios escolares de Rio Bonito do Iguaçu estejam aptos a receber novamente os estudantes.
Mesmo diante das dificuldades, o prefeito destacou que a população tem encontrado forças para seguir em frente. Ele completou dizendo que o apoio do Governo do Estado, especialmente por meio dos recursos destinados à reconstrução das moradias, tem ajudado as famílias a iniciarem a retomada de suas vidas. “As pessoas estão encarando essa situação com esperança. O apoio do Estado tem sido fundamental”, afirmou.
Os serviços essenciais, como energia elétrica e abastecimento de água, já foram restabelecidos, enquanto as equipes seguem trabalhando na limpeza dos entulhos e na organização das áreas mais afetadas.
Engenharia voluntária e o impacto direto na vida das famílias
Para que a reconstrução fosse possível, a atuação técnica foi decisiva. O prefeito Sezar Bovino afirmou que o trabalho coordenado pelo Crea-PR teve papel direto no acesso da população aos auxílios governamentais. “A ação do Crea foi muito rápida e eficiente. Todo o levantamento de infraestrutura que está permitindo o uso do cartão de reconstrução é resultado direto desse trabalho técnico”, destacou.
Na área urbana, a força-tarefa coordenada pelo Conselho resultou na emissão de mais de 1.200 laudos técnicos, elaborados por mais de 100 engenheiros de diversas categorias, com apoio de fiscais do Crea-PR e equipes da Defesa Civil. Os documentos avaliaram residências, comércios e edificações públicas, classificando os imóveis entre aqueles que poderiam ser recuperados e os que precisariam ser demolidos e reconstruídos.
A engenheira civil Regina De Toni, que integrou a missão voluntária e também participou, no ano passado, das ações no Rio Grande do Sul, explicou que o trabalho foi conduzido em articulação com a Defesa Civil. “A Defesa Civil ajudou muito a gente, porque eles demarcaram os lugares mais afetados, onde era mais urgente. A gente fez primeiro o que precisava ser feito com mais rapidez”, afirmou.
Ela completou dizendo que o apoio recebido foi além da organização do trabalho. “Ver a Defesa Civil trabalhando e a resiliência deles deu muita força para a gente. Eles ajudaram não só operacionalmente, mas também emocionalmente”, afirmou. Segundo Regina, em pouco mais de dois dias, foi possível concluir os laudos necessários para que o Governo do Estado liberasse os recursos. “A partir desses laudos, os recursos começaram a ser liberados de acordo com os danos que cada residência sofreu”, explicou.
Na zona rural, o trabalho técnico também foi intenso. Cerca de 400 propriedades rurais foram vistoriadas ao longo de uma semana, com equipes formadas por engenheiros civis voluntários, fiscais do Crea-PR e técnicos do IDR-PR e da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (SEAB). O uso de drones auxiliou no mapeamento das áreas mais afetadas, facilitando o acesso a locais de difícil deslocamento.
Regina destacou que muitas edificações precisaram ser interditadas ou demolidas. “Eram estruturas que tinham características que as tornavam mais suscetíveis à destruição. Algumas precisaram ser totalmente demolidas e outras interditadas para posterior recuperação”, explicou. Ela completou dizendo que a engenharia é indispensável nesses momentos. “Sem a engenharia, a retomada da vida dessas pessoas seria impossível”, afirmou.
O impacto humano do desastre
Apesar do avanço das ações técnicas, a insegurança com o futuro ainda faz parte da rotina de quem perdeu tudo. O morador Osmar da Luz, que teve a casa destruída pelo tornado, contou como a vida mudou de forma abrupta. “Não tem nem como descrever. Da noite para o dia a gente não tem mais casa, o trabalho fica afastado, no seguro, então está muito difícil. Tivemos que recorrer a uma casa que era do meu pai, que foi menos afetada, reformar e morar nela. Só Deus sabe como vai ser agora”, relatou.
Segundo Osmar, não houve alternativa além da reconstrução. “Ali foi tudo condenado. O tornado passou, visitou a gente, e agora não tem muito o que fazer. É só a reconstrução mesmo”, afirmou.
Para os voluntários, o impacto emocional também foi profundo. O engenheiro civil e de segurança do trabalho Lámerson José Guimarães, que atuou como voluntário em Rio Bonito do Iguaçu, afirmou que a experiência marcou sua trajetória profissional e pessoal. “Foi uma experiência humana muito forte. Poder mostrar às famílias que perderam seus lares que elas não estavam sozinhas fez toda a diferença”, afirmou.
Ele completou dizendo que o voluntariado deu um novo significado à profissão. “Foi colocar em prática o verdadeiro significado de fazer o bem, sem olhar a quem”, destacou.
Regina De Toni também falou sobre o impacto emocional vivido durante a missão. “Eu já participei de vários voluntariados, inclusive fora do país, mas nunca senti o que senti em Rio Bonito. Foram pessoas que tinham tudo e que, em 30 segundos, perderam tudo”, relatou. Ela afirmou que a experiência reforça a necessidade de repensar normas e sistemas construtivos no Brasil, para mitigar os efeitos de eventos extremos cada vez mais frequentes.
Planejamento de uma nova cidade
Além da reconstrução das áreas atingidas, Rio Bonito do Iguaçu iniciou um processo de replanejamento urbano. O prefeito explicou que algumas estruturas públicas serão realocadas, como a rodoviária, e que novos núcleos habitacionais estão em fase de implantação. Dois terrenos já foram adquiridos pelo município, onde serão construídas mais de 200 casas destinadas a famílias que não possuíam moradia própria ou viviam em situação irregular antes do desastre.
“Estamos planejando uma cidade voltada para o futuro, com estruturas mais seguras. Rio Bonito vai se reerguer”, afirmou o prefeito.
Articulação institucional e próximos passos
O presidente do Crea-PR, Eng. Agr. Clodomir Ascari, tem acompanhado as ações no município e se reuniu com o coordenador executivo da Defesa Civil, Cel. QOBM Eng. Civ. Ivan Ricardo Fernandes, para alinhar os trabalhos e discutir estratégias futuras. Ascari afirmou que a engenharia precisa estar presente desde o planejamento das cidades, garantindo estruturas mais seguras e preparadas para eventos extremos.
O encontro contou com a participação do responsável geral pela gestão dos trabalhos em Rio Bonito do Iguaçu e ouvidor do Crea, Eng. Mec. Edson Haluch, e reforçou a proposta de criação de grupos de trabalho permanentes para aprimorar a resposta técnica a desastres naturais.
Enquanto a cidade avança na reconstrução física, moradores e voluntários seguem lidando com os impactos emocionais deixados pelo tornado. Entre laudos, obras e novos projetos, Rio Bonito do Iguaçu começa a escrever um novo capítulo de sua história, marcado pela reconstrução, pela solidariedade e pela presença da engenharia a serviço da vida.
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