A Curitiba do futuro começou a ganhar um rosto. Foi há dois anos, em fevereiro de 2024, quando entrou em funcionamento o Hipervisor de Curitiba. A ferramenta, que dá suporte ao planejamento da cidade, teve seu Centro de Operações instalado no Palácio da Inovação, vizinho ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). Trata-se de uma plataforma de compartilhamento de dados públicos, munida de ferramentas capazes de coletas, processar e distribuir informações.
“O que a gente procura é oferecer evidência para o planejamento e a gestão da cidade. Esse é o nosso papel. Somos um centro de análise de dados para a gestão inteligente da cidade”, explica Oscar Schmeiske, diretor e também um dos “pais” do Hipervisor de Curitiba.
Embora o projeto tenha saído do papel há dois anos, o processo para implementação da iniciativa, que teve apoio da Secretaria de Administração, Gestão de Pessoal e Tecnologia da Informação (Smap), da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além do próprio Ippuc, teve início muito antes. E com uma inspiração em modelos vistos na França, especialmente na cidade de Paris.
Tudo começou por volta de 2018 e 2019, quando a Prefeitura de Curitiba, observando a revolução que vinha ocorrendo no mundo dos dados, com cada vez mais informações disponíveis (e não raro em tempo real), tentava criar uma iniciativa capaz de juntar essas informações que estavam dispersas e juntá-las para auxiliar a gestão da cidade. E um caso ocorrido em Lyon, terceira maior cidade francesa, acabou virando a inspiração para a Capital do Paraná.
“Lá, a companhia de água tinha acabado de ganhar a licitação do serviço e resolveu trocar os hidrômetros, instalando hidrômetros com chip, que transmitiam o consumo das unidades em tempo real. E aí alguém do hipervisor de lá teve uma ideia. Eles já tinham o cadastro de idosos que moravam sozinhos, e resolveram parear com o consumo de água. Se em algum dia não tivesse consumo numa daquelas unidades, eles telefonavam para aquela casa para saber se estava tudo certo. Se ninguém atendesse, ligavam para um parente credenciado ou para a Assistência Social. E quando nos contaram isso, na hora eu fechei a ideia do Hipervisor: ‘é esse que a gente quer”, relata Oscar.
“Eles pegaram duas informações que já estavam sendo coletadas, já estavam disponíveis, e juntaram as duas com um custo muito perto de zero para gerar um produto fantástico”, emenda ainda ele.
O Hipervisor de Curitiba fica no Palácio da Inovação, próximo do prédio do Ippuc (Foto: Franklin de Freitas)
Como funciona o Hipervisor
No Palácio da Inovação, o Hipervisor conta com um Centro de Operações com grandes monitores que atualizam os dados sobre a cidade em tempo real. São informações de diferentes áreas, extraídas da Muralha Digital de Curitiba, do Centro de Operações da Urbs, da Sanepar, da Copel e da Defesa Civil, além de sistemas especialistas, omo os da Saúde, da Educação e da Assistência Social.
“Temos 12 analistas de informações, três cientistas de dados, três engenheiros de dados e um técnico de informática, além de uma assistente e uma agente administrativa. E temos ainda dois coordenadores, um da área de análise e outro da área de TI”, explica Oscar. Ainda segundo ele, cada um dos 12 analistas trabalham focados numa área e em contato direto com as respectivas secretarias municipais e do Estado.
Essas áreas são as seguintes:
Economia e Finanças;
Assistência Social e Educação;
Saúde e segurança alimentar;
Trânsito;
Transporte;
Manutenção Urbana;
Segurança Pública;
Defesa Civil e Meio Ambiente;
Turismo, Esporte e Cultura;
Urbanismo e Habitação;
Design;
e Concessões.
A diferença do Hipervisor para um centro de controle
Antes da chegada do Hipervisor, Curitiba já contava com outros centros de controle. Esses locais, via de regra, trabalham com monitoramento e a resposta aos problemas que aparecem em tempo real. O foco, essencialmente, é fazer a operação continuar. Se um ônibus quebra, por exemplo, o centro de operações da URBS é quem vai tomar as medidas para retomar a operação, mandando outro ônibus substituir o veículo que quebrou. Já no Hipervisor, esse processo é bem diferente.
“A gente não faz monitoramento e resposta em tempo real. Mas se um ônibus quebra, é a gente que vai tentar descobrir porque ele quebrou. É o jeito que o motorista dirige? A manutenção do carro? É o estado da rua, que pode estar com buraco? São informações que a URBS não tem, como o estado do pavimento, mas nós conseguimos de outras fontes para fazer um cruzamento e descobrir porque acontece. E depois podemos fazer uma previsão de quando pode acontecer de novo e até apresentar algumas sugestões de melhoria”, aponta Oscar.
Outro exemplo que ele cita é o de uma escola que está perdendo alunos ou que tem alunos que estão faltando demais. Na área da Educação, especificamente, é possível verificar se teve alguma mudança de professor ou diretor. Mas algumas informações ficam fora desse escopo, como uma possível mudança no trajeto do ônibus, problemas com a criminalidade ou até a realocação de um grupo de moradores. “Temos acesso às informações de todas as áreas, então conseguimos fazer análises mais complexas”, ressalta Oscar.
Combate contra a dengue analisa até a venda de repelentes na cidade
Desde sua criação, o Hipervisor realizou alguns trabalhos de destaque. E um deles, em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), envolve o monitoramento da dengue. Para isso, são cruzadas 19 variáveis, incluindo pontos de maior venda de repelente na cidade, na tentativa de se identificar possíveis focos da doença na cidade, orientando as ações de fiscalização.
“A gente foi identificar lugares da cidade que eram mais quentes, às vezes porque tinham menos arborização; fomos identificar também piscinas em casas fechadas; e tudo isso para dar subsídio pro pessoal da Saúde fazer a fiscalização. Eles também colocaram mais de duas mil armadilhas pela rede de esgoto da cidade, para pegar o ovo do mosquito. Com esses resultados, e cruzando com outras informações, conseguimos começar a passar mais rapidamente a informação de onde poderia ter foco de dengue na cidade”, comenta Oscar. “Eram informações que a Saúde levava mais ou menos cinco dias para juntar e agora fazemos isso em 15 minutos”, comemora ainda ele.
Outro levantamento interessante está sendo feito agora. A ideia é pegar as informações de carteira de vacinação, com a Saúde, e a frequência e nota dos alunos da rede municipal, com a Educação. E então cruzar esses dois dados. “A ideia é verificar se quem tem a carteira de vacinação mais completa falta menos na escola e se, por consequência, tem um melhor desempenho escolar. É um dado que conseguimos obter cruzando informações de diferentes sistemas”, destaca o diretor do Hipervisor.
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