Não era crime. Não era loucura comprovada. Muitas vezes, nem doença era. Bastava estar triste, ser diferente, pobre demais ou simplesmente incômodo para alguém. Em Barbacena, Minas Gerais, o destino de milhares de pessoas foi decidido assim: num gesto rápido, num carimbo, numa internação que, para muitos, significava desaparecer do mundo e perder o direito de voltar.
No Hospital Colônia, o maior manicômio do país durante o século XX, gente virava coisa. Nomes se perdiam na entrada, substituídos por apelidos dados por funcionários apressados. Histórias eram arrancadas junto com as roupas. Ali dentro, falar pouco importava. Houve quem passasse décadas calado não por incapacidade, mas porque ninguém nunca se interessou em escutar.
Uma mulher foi internada porque chorava demais. Um homem porque tinha epilepsia. Outros simplesmente porque não se encaixavam. No Colônia, o diagnóstico muitas vezes vinha depois da internação – quando vinha.
O que hoje se chama de Holocausto Brasileiro não aconteceu em guerra nem sob bombas, mas em silêncio administrativo. Um trabalho investigativo da jornalista Daniela Arbex revela que mais de 60 mil pessoas morreram ali ao longo das décadas. A maioria não era doente mental. Eram pobres, alcoólatras, homossexuais, mulheres grávidas fora do casamento, esposas indesejadas, jovens rebeldes, tímidos, órfãos.
Quando chegavam, tinham os cabelos raspados. As roupas iam para sacos. A identidade também. Dormiam onde fosse possível, muitas vezes sobre o chão frio. Passavam fome, frio, medo. Entre os anos 1960 e 1980, centenas de corpos foram negociados com faculdades de medicina.
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A Lei da Reforma Psiquiátrica
O Brasil precisou olhar para esse espelho torto para entender que havia algo errado com a forma de lidar com a saúde mental. Não se tratava apenas de remédios ou leitos. Tratava-se de dignidade.
Foi nesse cenário que surgiu a Lei nº 10.216, de 2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica. Ela representou mais do que uma mudança técnica; foi uma mudança moral. Pela primeira vez, a legislação brasileira afirmou que pessoas em sofrimento psíquico não devem ser escondidas, isoladas ou punidas, mas cuidadas como cidadãos.
A lei passou a garantir que o atendimento seja feito com respeito, acesso à informação, proteção contra abusos e prioridade para o convívio social. A internação deixou de ser destino automático e virou último recurso. No lugar do manicômio como regra, surgiram serviços comunitários, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que acompanham pessoas fora dos muros, no cotidiano.
Em meados da década de 1980, o Brasil mantinha 430 hospitais psiquiátricos e cerca de 105,5 mil leitos, segundo arquivos da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde, organizados em 1994. Era um modelo baseado na permanência longa, no isolamento e na institucionalização. Aos poucos, esse desenho começou a se desfazer.
A redução dos leitos veio acompanhada de outro movimento: o crescimento dos serviços comunitários. CAPS, ambulatórios e atendimentos territoriais passaram a ocupar o espaço antes dominado por grandes manicômios. O Brasil seguia uma tendência internacional.
Em 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu que hospitais psiquiátricos deveriam deixar de ser o centro do cuidado. A orientação foi que esses espaços fossem substituídos por serviços em hospitais gerais, unidades comunitárias e atenção primária. A posição voltou a ser reforçada no Plano de Ação em Saúde Mental 2013–2020, quando a OMS defendeu que o tratamento aconteça, sempre que possível, perto da vida cotidiana das pessoas, com intervenções comprovadas e integração social.
O resultado aparece nos números. Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil reduziu cerca de 57% dos leitos psiquiátricos do SUS em dez anos. Todas as regiões acompanharam a queda. O Sudeste foi o que mais fechou leitos. O Centro-Oeste, o que menos reduziu. No Sul, ainda está a maior proporção de leitos por habitante, e o Paraná lidera esse índice.
Em 2024, o Paraná tinha 11 hospitais psiquiátricos e 1.662 leitos do SUS. Mas hoje, diferente do passado, a internação não é mais o destino final. É uma passagem.
Por dentro de um hospital psiquiátrico
Para entender como funciona uma internação atualmente, a reportagem acompanhou a rotina do maior hospital psiquiátrico de Curitiba. A instituição tem cerca de 70 anos de história e por décadas funcionou como Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro. Em 2022, passou a ser administrada pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e se transformou na Unidade Integrada de Crise e Apoio à Vida (UNIICA), com atuação também no bairro Jardim Botânico.
Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro (Foto: Luís Pedruco)
Hoje, a unidade tem 134 leitos, atende pelo SUS e por convênios e recebe pacientes encaminhados por CAPS, UPAs e pela regulação da Secretaria Municipal de Saúde.
“A gente costuma trabalhar com um período médio de 30 dias. Às vezes o médico avalia uma alta antes, às vezes é preciso um pouco mais de tempo para estabilizar”, explica a assistente social Thielly Vieira.
Quando o paciente chega, o primeiro encontro é com o serviço social. O objetivo não é apenas saber o diagnóstico, mas entender quem é aquela pessoa fora dali: com quem mora, quem é a família, bairro onde mora, qual história.
“Mesmo internado, ele não pode perder os direitos e os vínculos que tinha antes. A gente organiza visitas, aproxima a família e já pensa no que vem depois da alta”, conta Thielly.
Ela conta que muitos chegam desorganizados, sem suporte, mas que o trabalho é justamente reconstruir laços. “É uma conquista quando o paciente entra sem apoio e sai com vínculo familiar fortalecido e continuidade de tratamento.”
A rotina de internação no maior hospital psiquiátrico de Curitiba
O dia começa cedo. Higiene pessoal, organização do quarto, café da manhã, medicação. Depois, atividades. Há momentos de pátio, separados por alas masculinas e femininas, grupos terapêuticos, educação física, oficinas e espaços de conversa. A clínica também oferece aulas de segunda a sexta-feira para que adolescentes internados não percam o conteúdo da grade curricular.
Cada paciente passa por níveis de evolução: acolhimento, participação e socialização. Primeiro, ele se adapta à rotina. Depois, começa a participar das atividades. Por fim, quando já está mais estável, entra na fase de socialização.
“Eles precisam entender o próprio processo: se estão avançando, regredindo ou estabilizando. Isso dá segurança”, explica a assistente.
Quando o paciente não quer estar ali
A maioria não chega por vontade própria. “A maior parte dos pacientes não gostaria de estar internada. Mesmo quando não é involuntário, existe resistência”, conta a psicóloga Daisy Ferrari.
Ela explica que ninguém participa de um tratamento sem vínculo. “Não adianta mandar. Sem confiança, não existe cuidado. Primeiro a gente se apresenta, conversa, convida. Todo dia. Até o dia em que o paciente pede para falar.”
Daisy lembra de uma mulher que recusava qualquer contato. “Todos os dias eu ia lá e convidava ela pra conversar. Ela sempre dizia não e muitas vezes assim, com um tom mais hostil, um pouco mais agressiva. E tudo bem, é o momento dela. Hoje eu estava passando pela unidade e ela me pediu pra conversar”, conta a psicóloga.
No convênio, há atendimentos de psicologia individuais semanais. No SUS, geralmente a cada 15 dias, além dos grupos. Os grupos variam: dependência química, relações familiares, manejo de crise, sentimentos, autoestima. Às vezes a conversa vem depois de um filme, um desenho, uma pintura.
A UNIICA atende majoritariamente pacientes com dependência química, um perfil bem definido e recorrente nas unidades. Além disso, também há um número significativo de internações relacionadas a transtornos mentais. Entre eles, o mais frequente é o transtorno afetivo bipolar, que aparece com destaque nos levantamentos internos e nos dados sobre o tipo de internamento realizado pela instituição.
Segundo a OMS, transtornos como a bipolaridade afetam cerca de 140 milhões de pessoas no mundo e aproximadamente 2,5% dos brasileiros. Muitos diagnósticos aparecem ainda na juventude, entre 16 e 25 anos, e exigem acompanhamento contínuo.
Ainda que humanizado, o internamento integral em saúde mental é um processo complexo. “É muito difícil estar num internamento integral. É desafiador para a pessoa que vai e também para a família que acompanha. É um desafio enorme”, relata a profissional.
Ela explica que, muitas vezes, há resistência em permanecer na unidade por se tratar de um modelo diferente do hospital geral. Enquanto no hospital convencional o paciente costuma estar mais debilitado, com limitações de locomoção e até de alimentação, na saúde mental o perfil é outro. Na UNIICA, a maioria dos internados têm autonomia para se movimentar, cuidar da própria higiene e se alimentar. “Quem olha de fora, não vê um paciente que precisa ficar restrito ao leito”, destaca.
Por isso, o primeiro passo do atendimento é a construção de vínculo. A partir dessa relação de confiança, a equipe consegue conduzir o paciente a um momento de reflexão, estimulando a análise do próprio contexto e o engajamento no tratamento.
Como a terapia e os vínculos ajudam a reconstruir vidas na internação psiquiátrica
No cotidiano de um hospital psiquiátrico, a recuperação não acontece apenas com remédios. Ela começa com organização da própria rotina, aprender a cuidar do corpo, segurar um pincel, plantar na horta, dividir o tempo com outras pessoas que também tentam se reorganizar por dentro. É nesse espaço entre a técnica e o afeto que a Terapia Ocupacional ganha força.
Atividades expressivas (Foto: Luís Pedruco)
Na UNIICA, a terapeuta ocupacional Alana Skavinski acompanha de perto esse processo. Responsável pela unidade masculina e pela dos adolescentes, ela já passou por todos os setores do hospital e conhece diferentes perfis de pacientes. O trabalho vai além de manter alguém ocupado.
Segundo Alana, a equipe reorganiza a rotina dos pacientes, promove atividades de autocuidado e trabalha o resgate da autoestima. No dia a dia, isso se traduz em ações práticas: oficinas manuais, atividades expressivas, cuidados pessoais e até participação na horta da instituição. Cada unidade recebe propostas diferentes, de acordo com a idade e a condição emocional dos internos.
Ela conta que, entre adolescentes e adultos, o método muda, mas a essência é a mesma. “A gente faz atividades manuais, expressivas, de autocuidado. Estamos participando também da horta, então tem um leque de atividades que a gente faz com eles”, afirma. Nas alas juvenis, por exemplo, predominam propostas mais criativas; em outras, entram também atividades de lazer e convivência. Ainda assim, há algo que se repete: “O que eles mais gostam são as atividades manuais e as de autocuidado”.
A escolha da profissão veio cedo. Durante os estágios, Alana percebeu que a saúde mental era o espaço onde queria permanecer. “Quando eu vi a evolução dos pacientes, que chegaram desestabilizados, desorganizados, ter esse processo de cuidado, de reestabilização e ver a melhora deles, isso é muito significativo pra nós da área da saúde”, relata.
A terapeuta afirma que aprende diariamente com os próprios internos. “A gente aprende a ver a vida de outra forma, a valorizar a nossa vida. Os pacientes ensinam todo dia na saúde mental pra gente”, comenta Alana.
Enquanto profissionais constroem caminhos terapêuticos, do outro lado estão pessoas tentando reorganizar a própria história. Leonardo Silva*, de 33 anos, ex-paciente da UNIICA, passou 41 dias internado após receber diagnóstico de transtorno bipolar associado à dependência de álcool e cocaína. O pedido de ajuda surgiu quando a vida começou a travar. Ele parou de estudar, faltou ao trabalho e percebeu que precisava de suporte. A decisão partiu dele, mas o apoio principal veio da mãe, que o acompanhou durante todo o processo.
Os primeiros dias trouxeram vergonha, exposição e saudade da família. Ao chegar à clínica, o sentimento predominante foi o isolamento. “A primeira impressão é a de solidão, pois estranhamos o ambiente, não temos intimidade com os outros internos”, conta. Com o passar do tempo, a convivência vai ajustando as emoções e o espaço deixa de parecer tão estranho.
A relação com a equipe e com os outros pacientes ajudou a transformar a experiência. Ele relata que foi bem acolhido, criou amizades e passou a confiar no processo. Parte dessa mudança vem da rotina estruturada.
O tratamento não ficou restrito à estabilização clínica. Ele afirma que o processo mudou sua forma de olhar para si mesmo e para a vida.
“O tratamento abriu minha mente sobre os recursos necessários para minha recuperação. Me ensinou a aumentar minha autoestima e recuperar minhas metas de vida. Encontrar novamente meu eu interior, realizar um autodiálogo e enfrentar meus medos, fobias, traumas e criar novas janelas paralelas para reeditar meu passado”, conta Leonardo.
Depois da alta, começou outro desafio: sustentar fora da clínica o que foi aprendido dentro. Ele buscou grupos como Narcóticos Anônimos, igreja e retomou os estudos, iniciou atividade física e decidiu mudar de bairro. Sobre essa decisão, define: “Fiz uma ‘fuga geográfica’, mudei de bairro e escolhi minha mãe para ser minha rede de apoio”.
*O nome do ex-paciente foi usado de forma fictícia para preservar a sua identidade.
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