
Se você fechar os olhos durante a exibição dos filmes que dominam as conversas deste início de 2026, é provável que sinta mais medo — ou fascínio — do que se estivesse assistindo. A safra atual de indicados a Melhor Trilha Sonora Original rompeu definitivamente com o “papel de parede sonoro” de Hollywood. Não estamos mais falando de orquestras que apenas dizem ao público quando chorar. Estamos falando de texturas que arranham, incomodam e, em casos raros, inventam mundos inteiros.
A batalha deste ano não é apenas entre compositores, mas entre filosofias. De um lado, a reinvenção do gótico sulista; do outro, a frieza espacial pontuada por música clássica subversiva. Se o cinema de 2025 foi visualmente expansivo, sua contraparte sonora em 2026 é claustrofóbica, tátil e absolutamente brilhante.
A camada oculta de Sinners
Ninguém sabe traduzir a visão de Ryan Coogler como Ludwig Göransson, mas em Sinners, a dupla atingiu uma simbiose que beira o sobrenatural. O filme, uma trama de vampiros ambientada no sul dos Estados Unidos durante a era Jim Crow, pedia mais do que sustos; pedia uma atmosfera de opressão histórica e urgência visceral.
Göransson não recorreu aos violinos estridentes típicos do terror. Em vez disso, ele mergulhou no que a crítica tem chamado de “Southern Jug Rock assombrado”. A genialidade aqui está no subtexto: o uso de instrumentação de época misturada com uma produção moderna e quase imperceptível de graves que faz a sala de cinema vibrar antes mesmo de o monstro aparecer. A trilha não acompanha a ação; ela é o próprio predador, respirando no pescoço do espectador. É essa capacidade de transformar o som em uma presença física que coloca Göransson como o favorito indiscutível da temporada.
Bastidores e a alquimia de Pandora
Enquanto Sinners olha para o passado, Avatar: Fire and Ash exigiu que Simon Franglen olhasse para um lugar que não existe. A tarefa de Franglen é ingrata: herdar o legado de James Horner enquanto expande o vocabulário musical de Pandora para a tribo do fogo e das cinzas.
O detalhe que separa este trabalho de um blockbuster genérico é a obsessão artesanal. Para esta trilha, Franglen não se contentou com sintetizadores; ele literalmente inventou novos instrumentos. Relatos de estúdio descrevem sessões onde o compositor utilizou materiais queimados e sopros construídos do zero para criar uma sonoridade “punk” e agressiva, distinta da harmonia aquática do filme anterior. Essa “energia suja” traz uma textura orgânica que o CGI, por mais perfeito que seja, às vezes não consegue transmitir sozinho. Ouvir a trilha de Fire and Ash é ouvir o som de uma cultura alienígena em guerra, forjada não em computadores, mas em madeira, metal e fôlego humano.
O legado clássico e a subversão espacial
Talvez a surpresa mais elegante da lista seja Mickey 17. O diretor Bong Joon-ho sempre teve um ouvido peculiar (quem esquece a tensão de Parasita?), e sua nova colaboração com o compositor Jung Jae-il é um estudo sobre ironia.
Para um filme de ficção científica sobre clones descartáveis, a escolha óbvia seria eletrônica futurista. Jung Jae-il, no entanto, foi na direção oposta: o neoclássico. A trilha evoca a grandiosidade de Rachmaninoff, mas com um toque “quebrado”, quase como se a orquestra estivesse tocando em um vinil riscado. Essa escolha cria um distanciamento emocional hilário e trágico, sublinhando a descartabilidade do protagonista Mickey. É a música dizendo que, apesar de toda a tecnologia, a tragédia humana continua sendo uma ópera antiga e repetitiva.
Seja na pulsação obsessiva de Jonny Greenwood em One Battle After Another (ou The Battle of Baktan Cross, dependendo de a qual círculo cinéfilo você pertence) ou na elegância gótica de Alexandre Desplat em Frankenstein, o Oscar 2026 prova que a trilha sonora deixou de ser acompanhamento. Ela virou protagonista. E, pela primeira vez em anos, os compositores não estão tentando nos fazer sentir bem — eles estão tentando nos fazer sentir tudo.
