Imerso nas trevas, o Cineclube Necrotério acontece toda última sexta-feira do mês, ocupando um dos lugares mais inusitados da cidade — o velho necrotério do Instituto Médico Legal (IML) em Curitiba. O objetivo é assustar mesmo, com a seleção de filmes sendo sempre de terror. A audiência assiste clássicos do horror dentro de um local onde, no passado, cadáveres eram abertos e examinados.
O ex-necrotério é hoje parte do Museu Paranaense de Ciências Forenses (MPCF), da Polícia Científica do Paraná, com as sessões de cinema ocorrendo como contrapartida da produtora local Vigor Mortis. A iniciativa é gratuita, com a sala do necrotério comportando cerca de 50 pessoas, por ordem de chegada. “A distribuição de senhas geralmente acaba em poucos minutos. Às 19h a gente abre, às 19h15 já acabaram os lugares”, diz Paulo Biscaia, cineasta, pesquisador e idealizador da Vigor.
A parceria entre a Vigor Mortis e a Polícia Científica nasceu quando, para comemorar os seus 27 anos de existência, a produtora procurava algum lugar fora do comum para encenar a sua peça “Maldição dos 27 Anos“. Inicialmente, o necrotério tinha sido considerado somente para filmar depoimentos sobre o espetáculo. “Mas aí a gente conversou com a Fabíola, diretora do museu, e ali a produção viu que aquele espaço seria perfeito para a gente fazer a peça também. Acabou dando tudo certo e nasceu essa parceria bonita que a gente tem”, diz Biscaia.
A primeira sessão de cinema no local aconteceu no dia 31 de outubro de 2024, em pleno Halloween. No evento, foi exibido o filme “Morgue Story“, de Paulo Biscaia. Dois anos depois, o Cineclube Necrotério segue em pé, funcionando entre fevereiro e novembro.
O processo de organização inteiro é voluntário. “A gente tem um apoio incrível do Museu Forense, da Polícia Científica e também alguns outros parceiros que de vez em quando ajudam a gente cedendo Matrizes pra exibição, direitos de exibição, como a Darkflix, que nos ajuda com algumas matrizes pra gente projetar lá”, diz Biscaia. A curadoria de filmes é feita por críticos e professores, sempre dialogando com o ambiente.
“Filmes que se passam no necrotério ou que lidam com a morte, com a pós-morte. Aos poucos, a gente vai indo para filmes de horror que tenham o seu impacto cultural”, diz Biscaia. O último longa a ser exposto no espaço foi a produção luso-espanhola “A Noite do Terror Cego“, na edição de abril do Cineclube Necrotério. Antes de exibir o filme, a Vigor abriu uma oportunidade para iniciantes na sétima arte com a exibição de curtas do coletivo Motoserras, projeto de extensão em cinema de terror da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).
Percepção do público
Juno Lima, crítico de cinema, já participou de quatro sessões no necrotério. Para ele, o Cineclube é uma importante proposta cultural na cidade. “Eu acho que é uma boa utilização do espaço, é uma boa forma de manter a história da cidade viva e aquele espaço vivo para um outro propósito”, diz Lima. “Trazendo significados diferentes e em vez de modificar aquele espaço agrega muito para a cultura da cidade”, completa o crítico.
O ambiente também serve como amplificador da experiência de assistir um filme de terror. “Eu acho que o Necrotério ele traz uma certa mística para a sessão, tipo, a gente está no Necrotério — pessoas foram abertas aqui”, diz Lima.
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