Conheça o AçaíBot: o robô que colhe que açaí lançado no Paraná

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Um robô desenvolvido para facilitar a colheita da palmeira juçara, espécie nativa da Mata Atlântica, foi lançado nesta terça-feira (2) durante a 4ª Jornada da Natureza, na comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu (PR). A apresentação da tecnologia, chamada de AçaíBot, foi um dos destaques do segundo dia da programação, que promoveu a semeadura aérea de 10 toneladas de sementes de juçara, além de atividade de educação ambiental junto às crianças da Escola Itinerante Wagner Lopes. A Jornada segue até o dia 6, com plantio e semeadura de 30 toneladas de sementes da palmeira Juçara.

Nelson Franzini, representante da Empresa Kaatech, com sede em Belém do Pará, inventores do AçaíBot, conta que o robô é uma tecnologia 100% brasileira, desenvolvida primeiro para o açaí da Amazônia. Durante o último ano, foi adaptado para o açaí da Mata Atlântica. A máquina é feita de plástico injetável e fibra de carbono, mesmo material utilizado para construção de aviões. 

Para fazer a coleta do açaí, o robô é acionado por tração e sobe o caule da palmeira. Quando alcança o fruto, o AçaíBot corta os cachos da fruta e desce ao solo, com o açaí no reservatório. A tecnologia suporta até 80 kg de açaí e consegue subir caules de 50 a 150 cm de diâmetro. 

“A tecnologia foi desenvolvida para aumentar a produtividade e melhorar a dignidade de vida das famílias produtoras. Com esse equipamento, você elimina o risco de acidente, que hoje é um dos principais desafios da colheita do açaí”, explica Franzini. 

O desafio da colheita manual e a busca por avanço tecnológico 

Para quem está na linha de frente da produção, a chegada do robô representa um divisor de águas. Josué Evaristo Gomes, pioneiro na colheita e beneficiamento da juçara na região, relembra o histórico de trabalho da comunidade, que começou há sete anos após a conquista da terra, quando identificaram o potencial das palmeiras nativas. 

“A gente começou no primeiro ano conseguindo, com muita dificuldade, colher em torno de 600, 700 quilos de fruta para fazer o despoupamento. No segundo ano a gente conseguiu avançar, conseguimos colher algo em torno de duas toneladas de fruta, e os anos seguintes foram só aumentando”, relata Josué.

Apesar do crescimento e do grande potencial regional, o gargalo sempre foi a extrema dificuldade e o perigo do processo de colheita manual, que exige escalar até a copa das palmeiras. “Esse processo de subir quando nós fazemos a escalada na árvore, ela sempre oferece um alto risco para a pessoa que está fazendo esse processo”, desabafa o produtor.

Diante desse cenário, a comunidade buscou ativamente por inovação. Ao saber do desenvolvimento do AçaíBot, uma comitiva do pré-assentamento viajou até Antonina (PR), no início do ano, para conhecer o equipamento de perto. 

O impacto esperado com a introdução da nova tecnologia vai significar aumento dos números de produção e segurança do trabalhador. 

“Eu hoje olho para esse equipamento com muito otimismo, porque vejo nele não somente a escalada de produção, mas também resolvendo um problema que a gente tem enquanto coletor, que é a penosidade desse trabalho que a gente faz, de subir numa árvore, escalar, passar o dia inteiro, todo dia, durante meses realizando esse trabalho. Ele é um trabalho muito desgastante, que exige muito da pessoa que executa essa tarefa, sem a gente contar os riscos que é, riscos de escorregar e acabar sofrendo um acidente”, diz Josué.

Com o AçaíBot acessível para a comunidade Dom Tomás Balduíno, a expectativa é de uma colheita mais ágil, eficiente e, acima de tudo, segura. “Ele vem diminuir o risco para nós enquanto coletores e vem também trazer mais agilidade para o processo. Ele vai conseguir subir e descer com segurança e agilidade dando um rendimento muito maior para o trabalho”, avalia o pioneiro. 

“E para mim, o mais importante é que esse equipamento não vem para substituir o ser humano, mas para se somar. Os coletores continuam nas suas equipes, mas fazendo a colheita do chão, sem esse desgaste, mas operando o equipamento. Então estamos muito otimistas quanto a isso e vamos implantar isso aqui na nossa região”, conclui Josué.

Tecnologia a serviço do povo

A chegada do AçaíBot na comunidade também levanta um debate profundo sobre o papel da tecnologia no campo. Para José Damasceno, campones e integrante do MST há mais de três décadas, a inovação técnica deve servir para emancipar o trabalhador, e não para excluí-lo, diferenciando o projeto atual do histórico de mecanização promovido pelo agronegócio e pelo capital financeiro desde a chamada “Revolução Verde” dos anos 1970.

“Essa ação do agronegócio foi o que causou o maior malefício na agricultura brasileira […] no sentido de destruir as comunidades inteiras, de acabar com o campo de futebol, com a igreja, com o cemitério, e se tornar uma única lavoura de soja, uma única plantação de monocultura. Expulsou a maioria dos camponeses do campo, tirando deles o direito de viver na terra”, analisa Damasceno.

O militante ressalta que o movimento não é contrário ao avanço tecnológico, desde que ele tenha um propósito social: “Não que nós somos contra a tecnologia, desde que a tecnologia venha para beneficiar a maioria da população. Quando a tecnologia vem para tirar o trabalho, para tirar a moradia, para tirar o direito de viver no campo, ela não traz nenhum benefício. Nós achamos que o desenvolvimento deveria ser para que todo mundo tivesse acesso, melhorar as condições de trabalho, melhorar as condições sociais, culturais, o tempo da sociabilidade, o tempo de diversão, e também a renda.”

Alimento saudável e permanência na terra

Para Damasceno, o AçaíBot é o exemplo perfeito de como a modernização pode caminhar lado a lado com a reforma agrária e a conservação ambiental. Enquanto as grandes máquinas do agronegócio transformaram terras em produção de commodities, tecnologias de base camponesa focam na produção de comida de verdade.

“Nesse sentido é que nós achamos que o robô, essa tecnologia que foi lançada hoje para colher a Palmeira Juçara, ele é importante no sentido de diminuir a penosidade do trabalho e manter, dar condições para uma família que quer manter essa cultura de viver, tirar da floresta sem agredi-la. Ele dá essa condição para a convivência com a natureza”, defende.

O objetivo agora é garantir que o acesso a essa ferramenta seja democratizado nos assentamentos para fortalecer a diversificação da agricultura.

“A tecnologia que nos expulsou e nos tomou a terra não produziu mais comida naquele lugar que nós produzíamos. Ela transformou grande extensão de terra em produção de commodity e não de alimento. Eu acho que é através de tecnologias voltadas para a pequena agricultura, voltada para os assentamentos — e por que não dizer também para os nossos irmãos indígenas —, voltada no sentido de fixar o homem no campo, no meio rural, e aumentar cada vez mais a produção de alimento saudável e preservando o ambiente”, finaliza Damasceno.

Confira a programação para os próximos dias: 

01/06 – Nova Laranjeiras (TI Rio das Cobras) – Semeadura aérea de 2 toneladas de sementes

8h às 9h – Acolhida e café da manhã.9h – Abertura da Jornada com apresentação cultural das mulheres indígenas e sobrevoo da semeadura aérea da Palmeira Juçara.11h30 – Ato político com autoridades.12h30 – Almoço.14h – Atividade com as escolas e plantio de mudas.17h – Feira com produtos locais e atividade cultural com bandas indígenas.

02/06 – Quedas do Iguaçu — Comunidade Dom Tomás Balduíno — semeadura aérea de 10 toneladas de sementes

Principais atividades: dia de campo com monitoramento de áreas; visita à unidade de produção e beneficiamento de juçara e frutas nativas; semeadura aérea de Palmeira Juçara.

9h – Acolhida e credenciamento das autoridades e instituições parceiras.9h30 – Café da manhã.11h – Sobrevoo de semeadura de juçara.12h – Ato político.13h – Almoço coletivo.14h – Continuação do sobrevoo e semeadura da palmeira.17h – Programação cultural.

03/06 – Rio Bonito do Iguaçu — Comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio — semeadura aérea de 4 toneladas de sementes

Principais atividades: sobrevoo e mutirão de plantio nas áreas que foram afetadas pelo tornado em novembro/25, com ato político e conferência na universidade.

7h30 – Acolhida.9h00 – Sobrevoo com semeadura aérea.10h30 – Ato político.12h30 – Almoço comunitário.13h30 – Mutirão de plantio — mudas de árvores nativas.16h30 – Atividades ambientais na UFFS.19h30 – Conferência sobre a Palmeira Juçara e resultados das pesquisas em torno da semeadura aérea.

04/06/2026 – Rio Bonito do Iguaçu – Assentamento Dom Tomás Balduíno

12h – Almoço

13h – Teste a campo da máquina de colheita de açaí – Açaíbot

16h – Café da tarde

Formação ambiental com certificação

05/06/2026  – Guarapuava – Assentamento Nova Geração

10h – Ato político

12h – Almoço

13h – Oficina de proteção de fonte e plantio de árvore na reserva legal atingida pelo tornado

15h – Distribuição de mudas e encerramento.

06/06/2026 – Adrianópolis – Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira / Comunidade João Surá – semeadura aérea de 2 toneladas de sementes

Principais atividades: sobrevoo de semeadura de juçara, ato político, troca de sementes, reconhecimento do território.

8h – Acolhida e café da manhã.9h – Sobrevoo e semeadura da Palmeira Juçara.11h – Ato político12h30 – Almoço coletivo14h – Apresentação cultural da história do Colégio Estadual Diogo Gomes.15h – Passeio para conhecer a comunidade.18h – Troca de sementes e mudas
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