Deuses gregos estão de volta: moradora da Grande Curitiba resgata religião da Grécia Antiga

0
22

Com o lançamento de A Odisseia (2026) de Christopher Nolan, a Grécia Antiga entrou em voga novamente, revivendo os grandes heróis, vilões e deuses dos mitos gregos. Para a maior parte do público, estas histórias são lendas de uma terra longínqua e um tempo quase alienígena, com valores e maneiras de compreender o mundo muito diferentes das nossas. Porém, para algumas pessoas, estas narrativas são a base de uma tradição espiritual que segue viva e bem, mesmo divorciada das ágoras e acrópoles da Grécia Antiga.

É o caso de Alexandra Oliveira, psicóloga, moradora de Campo Largo e fundadora da primeira e maior organização de reconstrucionismo helênico do Brasil, a Helenos. A instituição tem como propósito resgatar e adequar a religião da Grécia Antiga à atualidade, cultuando, entre muitas outras deidades e espíritos, divindades reconhecíveis como Zeus, o rei dos deuses; Atena, a deusa da sabedoria e da guerra; Hermes, o deus dos viajantes e mensageiros; e Afrodite, a deusa do amor.

Alexandra começou a acreditar no panteão grego em 1998, depois de transitar por várias outras religiões e práticas. “Eu comecei a procurar saber como funcionava o sistema de crenças da Grécia Antiga, e percebi que os deuses gregos eram os que mais respondiam às minhas questões, que mais apareciam nos meus sonhos e experiências — os que eram mais rápidos em atender o que eu buscava”, diz Oliveira.

Alexandra com sua lira – Foto: Matheus Freitas

Na época, havia muita pouca discussão sobre o helenismo na internet brasileira, então Alexandra teve de buscar textos e discussões em na língua inglesa e traduzi-las para o português. “O grupo americano Hellenion surgiu em 1999 e eu os acompanhava. O grupo se tornou uma instituição religiosa registrada nos EUA em 2001 e eu comecei a traduzir os textos para trazer pro Brasil, então criei o nosso site em 2003. No início era somente RHB – Reconstrucionismo Helênico no Brasil, porque só existia a gente, mas há uns 10 anos mudamos o nome para Helenos para ficar mais simples e para não confundir com outros reconstrucionistas helênicos que não se filiaram conosco e que criaram grupos paralelos”, diz Oliveira.

Hoje, o Helenos tem 4 mil seguidores em sua página do Instagram, além de acumular um material escrito expressivo em seu site para todo neófito helênico e um podcast com dezenas de episódios chamado “Helenocast”. Alexandra também faz parte da Hellenion, citada acima, trabalhando no comitê que desenvolve o calendário, resgatando as datas e liturgias dos festivais da Grécia Antiga.

Crenças

Os pilares do reconstrucionismo helênico são virtudes praticadas da antiguidade, como a xênia, a hospitalidade que um anfitrião deve demonstrar quando recebe alguém em casa; a eusébia, a devoção aos deuses; a arete, a busca por excelência; a sofrósina, a prudência; entre diversos outros conceitos similares praticados em prol da virtude moral. Somando a isso, praticantes normalmente têm um altar dedicado às deidades com estatuetas, arte, velas, incensos e pequenos objetos que remetem aos deuses.

Estátua de Héstia – Foto: Matheus Freitas

Altar – Foto: Matheus Freitas

Fato é que os tempos mudaram desde a Era Clássica, e o sacrifício de hecatombes já não é mais socialmente aceito. O sacrifício ainda é uma grande parte da religião, mas hoje toma forma de oferendas de alimentos e libações de líquidos. “Nós separamos parte da refeição em oferta a Héstia (a deusa do lar). Nós ofertamos nossas atividades à deidade correspondente, como os estudos a Atena, a atividade musical a Apolo, o teatro a Dioniso, o trabalho com o meio ambiente a Ártemis e a arte de escrever para Hermes”, diz Oliveira. “Além disso, nós procuramos seguir o calendário helênico que possui alguns dias sagrados todo mês e alguns festivais sazonais.”

Fontes históricas

Estima-se que a grande maioria dos textos da antiguidade foram perdidos, o que dificulta ter um panorama histórico total da religião da Grécia Antiga. Felizmente, os textos que sobreviveram até hoje são ricos em informações. Alexandra cita como suas fontes: “As máximas délficas, os princípios de Sólon, os versos de ouro de Pitágoras, os textos do historiador Heródoto e do geógrafo Pausânias, os livros de Hesíodo e Homero, as peças de Eurípedes, Aristófanes, Ésquilo, os hinos de Orfeu e Calímaco e Safo, as fábulas de Ésopo, a filosofia de Platão, Sócrates, Aristóteles, Píndaro, Heráclito, Tales e dos estóicos, e – claro – também os relatos de descobertas arqueológicas e os estudos clássicos feitos por autores modernos.”

Fontes literárias – Foto: Matheus Freitas

Vale ressaltar que o Reconstrucionismo Helênico se pauta na historicidade de suas práticas, então ter fontes históricas de primeira mão sobre o que ocorria dentro e fora dos templos é fulcral.

Preconceito

Alexandra diz que há preconceito contra o helenismo no Brasil, especialmente por confundirem a crença com bruxaria. Mesmo com a liberdade religiosa sendo um direito assegurado pela Constituição, praticantes de vertentes neo-pagãs como a bruxaria sofrem discriminação diariamente. Por conta da confusão, o helenismo acaba prejudicado junto — “Principalmente os helenos que ainda moram com os pais e são impedidos de praticar plenamente suas crenças”, diz Alexandra.

Mesmo que inusitado para a maior parte dos leitores, o helenismo é uma crença que deve ser levada a sério como qualquer outra, com suas próprias práticas, ritos e tradições. Seus adeptos não são muitos atualmente no Brasil mas, como é demonstrado pela história de Alexandra, são provas vivas que é possível se conectar em um nível muito pessoal com tradições e valores de um lugar e tempo bem diferente do nosso.

Sob supervisão de Josianne Ritz
O post Deuses gregos estão de volta: moradora da Grande Curitiba resgata religião da Grécia Antiga apareceu primeiro em Bem Paraná.