Cascavel: Uma potência eleitoral com risco de apagão

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A corrida eleitoral de 2026, como se sabe, já começou há muito tempo em Cascavel, ela chega com um desconforto coletivo. Não é falta de nomes. Pelo contrário. O problema pode ser justamente o excesso deles. A eleição de 2026 ainda nem esquentou de verdade, mas em Cascavel já tem cheiro de panela de pressão no fogo alto. E não é por falta de ingredientes. Ao contrário: o cardápio político local está tão farto que corre o risco de azedar antes mesmo de ir à mesa.

Se por um lado a cidade ensaia uma prateleira cheia de pré-candidatos, por outro encara uma realidade incômoda, já teve cinco deputados federais em um mesmo período: Alfredo Kaefer, Nelson Padovani, Frangão, Giacobo e Evandro Roman; hoje conta com apenas um, Nelsinho Padovani (Republicanos) que já disse que não buscará a reeleição. E há, nos bastidores, um temor cada vez menos velado de que, mantido o cenário de fragmentação, Cascavel possa sair das urnas de 2026 sem nenhum representante na Câmara Federal. Sim, nenhum! Um feito que exigiria uma combinação rara de desorganização política com excesso de confiança individual.

Já na esfera estadual, a briga é boa, mas pelo menos a expectativa é manter a representatividade atual com quatro cadeiras.

Eleitor não falta

O detalhe que torna tudo mais irônico é o crescimento do eleitorado regional. O Oeste do Paraná ultrapassou a marca de 1 milhão de eleitores. Cascavel lidera com 235.498 votantes, seguida por Foz do Iguaçu (203.330) e Toledo (105.852). Ou seja, voto tem. Falta transformar voto em cadeira — um detalhe técnico que, na política, é tudo. A comparação incomoda: Toledo, menor, tem dois deputados federais. Foz do Iguaçu, três federais e um estadual. Cascavel, que já foi protagonista, hoje parece mais um “comentarista esportivo”: Assiste ao jogo, analisa as jogadas, mas não balança a rede.

Muitos nomes, pouco espaço

A lista de pré-candidatos ajuda a entender o cenário. Para deputado federal são Marcio Pacheco (Republicanos), Henrique Mecabô (Novo), Hermes “Frangão” Parcianello (União Brasil), Leonaldo Paranhos (PSD), Eder Bublitz (Republicanos) e Valdemar Bernardo Jorge (Novo). Nos bastidores, ainda orbitam nomes como Alfredo Kaefer e Evandro Roman – uma espécie de “liga dos veteranos” sempre pronta para um retorno estratégico e calculado. Até o nome do vereador Cidão da Telepar (Podemos) é ventilado na corrida federal.

Na disputa estadual, o cenário não é menos povoado. Estão no radar Gugu Bueno (PSD), Batatinha, Adelino Ribeiro (PSDB), Tiago Almeida (Republicanos), Fão do Bolsonaro (PL), Valdecir Alcantara (PP), Bia Alcantara (PT), Professor Lemos (PT), Mateus Pepice (Missão) e Cleverson Sibulski (União Brasil).

Na Câmara de Vereadores, pelo menos cinco parlamentares já ensaiam voo mais alto. O presidente do Legislativo, Tiago Almeida, resume o discurso que se repete entre diferentes espectros ideológicos, “Cascavel merece mais representatividade”. O problema é que todos repetem a mesma frase, claro, com a pretensão de ser o dono desta representatividade.

Matemática que não negocia com o “ego”

O sistema proporcional não tem paciência para projetos pessoais. Ele é frio, objetivo e, por vezes, cruel. No Paraná, são 30 vagas para deputado federal — número mantido após o STF barrar mudanças para 2026 –  e 54 cadeiras na Assembleia Legislativa do Paraná. Parece muito, até lembrar que cada partido pode lançar até 31 candidatos a federal e 55 a estadual.

Na prática, isso cria uma espécie de “BBB eleitoral”: muita gente na casa, poucos sobreviventes e uma disputa intensa por atenção, votos, estrutura e abriga contra o “paredão da eliminação”. Quem não tiver densidade eleitoral consistente e, principalmente, quem dividir o mesmo eleitorado com concorrentes diretos, corre sério risco de virar mero figurante.

Em outras palavras: não basta ser conhecido em Cascavel. É preciso ser competitivo no Paraná. E, de preferência, evitar o fenômeno da autofagia eleitoral.

O eterno retorno do “Voto Útil”

É nesse contexto que uma ideia antiga volta a ganhar força, a campanha do “Voto Útil”. Quase um clássico da política local, reaparece a cada ciclo eleitoral com nova embalagem e a mesma promessa — unir forças para eleger “os nossos”.

A proposta, que já foi debatida em eleições anteriores, deve ressurgir com nova roupagem, agora com articulação de entidades como o POD (Programa Oeste em Desenvolvimento) e a Caciopar. O objetivo é simples no papel e complexo na prática: reduzir a dispersão de votos e conter o avanço dos chamados “forasteiros” — candidatos que fazem campanha na cidade, colhem votos expressivos e depois somem no mapa quando o assunto é investimento.

O presidente do POD, Alci Rotta Junior, admite que o debate ainda engatinha, ou seja, a ideia existe, o consenso não. “A gente ainda está em debate sobre esse assunto. Acredito que faremos algo no sentido de incentivar votos em candidatos da região Oeste”, afirmou.

E aqui entra o “déjà vu”. Em 2021, uma audiência pública com o slogan “Cascavelense vota em cascavelense” reuniu lideranças, produziu discursos, gerou expectativas — e, como costuma acontecer, terminou mais no campo da intenção do que da execução.

Em 2025, vereadores voltaram ao tema, com críticas diretas a parlamentares bem votados na cidade que pouco retornaram em recursos. O roteiro é conhecido: voto aqui, investimento “lá”.

Representatividade em queda livre?

Hoje, Cascavel mantém quatro deputados estaduais — Gugu Bueno, Batatinha, Marcio Pacheco e Professor Lemos — e apenas um federal, Nelsinho Padovani. A presença em Curitiba ainda garante alguma relevância institucional, mas Brasília, o encolhimento preocupa. A redução da bancada federal não é apenas simbólica. Ela impacta diretamente na capacidade de articulação, captação de recursos e influência política. Em termos simples: menos voz, menos espaço, menos resultado.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que o Oeste ainda não dominou a arte da convergência. Enquanto regiões menores, como o Sudoeste, apostam em poucos nomes viáveis e jogam de forma coordenada, Cascavel segue fiel à lógica do “quanto mais, melhor”. Uma estratégia que, na prática, muitas vezes resulta em “quanto mais, pior”.

O relógio não espera indecisos

O calendário eleitoral começa a apertar o cerco. O prazo de desincompatibilização, encerrado em 4 de abril, funciona como uma espécie de “teste de coragem”: quem ocupa cargo no Executivo e pretende disputar eleição precisa abrir mão da função. É o momento em que o discurso se encontra com a realidade.

Além disso, o prazo também marca limites para domicílio eleitoral e ajustes partidários. Detalhes técnicos que, no fim, têm impacto direto sobre quem pode ou não entrar no jogo.

O risco real

Cascavel chega a 2026 com tudo o que, em tese, levaria a um resultado robusto: eleitorado expressivo, diversidade de nomes, histórico político relevante e uma pauta clara — aumentar a representatividade. Mas falta o principal: coordenação. Sem ela, o cenário atual deixa de ser apenas preocupante e passa a ser “perigoso”. A cidade pode, sim, terminar a eleição sem um único deputado federal. Não por falta de votos, mas por excesso de candidatos mirando o mesmo eleitor.

E, nesse caso, não haverá muito espaço para culpar os “forasteiros”. Afinal, como a própria história recente mostra, eles só ocupam o espaço que alguém deixou aberto.

Confira o calendário

7 de março a 3 de abril

Janela partidária para troca de legenda por parlamentares.

4 de abril

Data limite para que candidatos que ocupam cargos no Executivo se afastem das funções (desincompatibilização) e para que partidos estejam com estatutos registrados no TSE.

6 de maio

Prazo final para tirar o primeiro título, transferir o domicílio eleitoral ou regularizar pendências com a Justiça Eleitoral através do Autoatendimento Eleitoral.

20 de julho a 5 de agosto

Período para a realização das convenções partidárias para escolha de candidatos e coligações.

15 de agosto

Prazo final para o registro oficial de candidaturas na Justiça Eleitoral.

16 de agosto

Início oficial da propaganda eleitoral, inclusive na internet.

28 de agosto

Início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.

Datas de Votação

1º Turno: 4 de outubro

2º Turno: 25 de outubro

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