Indústrias do Paraná apostamem espaços de descanso e diálogo para cuidar da saúde mental

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O avanço dos casos de adoecimento mental relacionados ao trabalho tem levado empresas e órgãos reguladores a voltarem a atenção para um tema que, durante muitos anos, foi tratado apenas como uma questão individual do trabalhador.Somente em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,66% em comparação a 2024, quando foram registrados 472.328 benefícios.

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O Paraná ocupa o 6º lugar entre os estados com maior número de benefícios concedidos, com 28.831 casos. À frente estão São Paulo (149.375), Minas Gerais (83.321), Rio Grande do Sul (46.738), Rio de Janeiro (41.997) e Santa Catarina (39.441).Em meio a esse cenário, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), ampliou a responsabilidade das empresas sobre fatores que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores.Desde maio de 2026, os riscos psicossociais passaram a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Além dos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes, as empresas precisam avaliar fatores relacionados à organização do trabalho, como sobrecarga de tarefas, pressão excessiva, conflitos entre equipes, jornadas extensas e situações de assédio.

Riscos psicossociais exigem um olhar para a organização do trabalho

Na avaliação do médico do trabalho Fábio Barbosa, a principal mudança é diferenciar ações de bem-estar da identificação dos fatores que, de fato, podem gerar adoecimento.“Os riscos psicossociais estão relacionados às situações que podem gerar sofrimento, como excesso de demanda, jornadas prolongadas, trabalho em turnos e uma organização inadequada das atividades”, explica.O médico trabalha na Valmet, multinacional finlandesa que atua no desenvolvimento de tecnologias, automação e serviços para as indústrias, localizada em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba. Diante da realidade da empresa, que conta com 432 funcionários, ele afirma que o grande volume de demandas, viagens frequentes e a necessidade de cumprir prazos estão entre os aspectos monitorados.Apesar de iniciativas voltadas ao bem-estar já estarem mais presentes no mercado, Fábio ressalta que a atualização da NR-1 trouxe uma atenção maior às medidas organizacionais.“A gente precisa separar as medidas de bem-estar e as organizacionais, os riscos de fato da atividade. As medidas de bem-estar que as empresas têm tomado já no intuito de gerar um maior prazer do colaborador estar ali exercendo o seu trabalho, enquanto os riscos psicossociais são as disfunções e situações que geram problema”, diz Fábio Barbosa.Segundo o médico, um ambiente psicologicamente seguro envolve diferentes necessidades individuais dos trabalhadores. “O conforto não é apenas físico, mas também mental. Cada pessoa tem necessidades diferentes”, afirma. “Algumas valorizam mais autonomia dentro do trabalho, algumas vão dar um valor maior a ter um direcionamento das atividades. O importante é entender onde cada um acaba se sentindo mais confortável dentro daquela atividade”.Ele avalia que um dos desafios da nova norma ainda está na forma como as exigências serão interpretadas e fiscalizadas. “O principal vai ser como que não só as empresas, mas como o órgão fiscalizador vai olhar para isso. Porque a gente ainda tem muitas dúvidas se as ações que a gente está tomando são as necessárias ou se, mesmo tomando essas ações, podem haver alguns questionamentos.”O desafio das empresas, a partir de agora, é demonstrar não apenas a existência de ações de qualidade de vida, mas também a capacidade de identificar e agir sobre fatores da própria organização do trabalho que possam contribuir para o adoecimento dos profissionais.

Exemplos dentro das indústriasEntre as iniciativas desenvolvidas na Valmet está o programa Viva Vida + Saúde, criado durante a pandemia com suporte psicológico e financeiro aos funcionários e familiares na América Latina.Segundo Flávia Vieira, diretora de People and Culture da Valmet, o programa evoluiu ao longo dos últimos cinco anos e passou a incorporar outras iniciativas voltadas à saúde dos colaboradores, como a criação de uma sala de descompressão, destinada ao descanso e à convivência entre os funcionários, e sessões de massagens rápidas.Para que o cuidado com a saúde mental aconteça na prática, as lideranças também precisam estar preparadas para perceber mudanças no comportamento dos profissionais e encaminhar situações que exijam apoio especializado.A empresa busca oferecer ferramentas para que gestores consigam identificar sinais de desgaste emocional, sem substituir o papel dos profissionais de saúde.“Existem alguns temas que nós não vamos trabalhar, porque isso tem que ser direcionado para profissionais da área, o terapeuta, o nosso médico do trabalho. Eles recebem ferramentas do dia a dia e orientações nos sinais de desgaste, um sinal diferenciado na pergunta, na reunião, na rotina de trabalho.”Há quase 40 anos, a Versátil Andaimes e Escoramentos auxilia pessoas e empresas no domínio de altura em obras de variados portes. Localizada em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, a empresa possui núcleos em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, acumulando mais de 300 colaboradores.Para aprimorar o relacionamento corporativo, Neide e Sérgio Sosvianin — os fundadores da Versátil —, desenvolveram uma prática de escuta. “Para saber o clima cultural, nós temos o Papo Café. Uma vez por ano, nós conversamos individualmente com todos os colaboradores. Em uma roda de conversa, com no máximo 15 pessoas, conversamos e tomamos um café. Sem líderes, nem gestores. É direto na fonte”, explica Neide.As reuniões podem tratar desde o reconhecimento de uma simples goteira, até questões de relacionamento entre colegas ou da vida particular. “Nós vamos em todas as unidades. O objetivo é saber a percepção da empresa e como a pessoa está entendendo a nossa cultura. Sugestões e críticas também são bem-vindas”, reforça.Para Neide, um canal direto e seguro é a chave para a promoção da dignidade do trabalhador: “Desde uma boa comida, uma cadeira que não está rasgada até um ambiente limpo lá fora. Tudo é dignidade. É sobre entender que, hoje, o funcionário não está legal e o chefe dele saber que é porque ele tem um filho que está doente. Muitas vezes, o chefe não se preocupa nem se ele tem filho, quem dirá se está doente. Para nós, é fazer com que a pessoa venha trabalhar, mas venha de forma digna. Esse é um dos nossos valores”.

Valmet promove ações de bem-estar para os trabalhadores (Franklin de Freitas)

A diferença de percepção de quem está no ambiente de trabalho

Estagiária de Engenharia de Produção na Valmet há três meses, Giovana Silva afirma que as iniciativas de descanso e convivência ajudam na rotina de quem concilia trabalho e faculdade. Ela destaca também a experiência com a sala de descompressão, utilizada principalmente nos intervalos.“É a primeira empresa que eu trabalho que tem esse ambiente. Às vezes, você quer relaxar um pouco pós-almoço e, dependendo da empresa, você tem que ir para o seu posto de trabalho. Então, tem esse ambiente que você consegue se distanciar, jogar, ler e socializar.”Reginaldo Aparecido dos Santos trabalha há 22 anos na Versátil, a maior parte deles como hidrojatista, na limpeza das peças que retornam das obras. Todos os dias, ele sai de bicicleta de Piraquara com destino a Colombo para o trabalho. Com um sorriso no rosto, Reginaldo conta qual é a sua maior motivação: “Não chego atrasado e não falto nunca. A verdade é você gostar do que você faz”.“Ninguém fica tanto tempo numa empresa e se coloca nesse nível de esforço se não gostar, primeiro, do trabalho, e, segundo, da empresa e da maneira como ela trata as pessoas. Do mesmo jeito, nós temos um carinho recíproco para com os funcionários”, diz o gerente de operações Bruno Pontes.Em 2025, a Versátil foi a primeira empresa do Brasil a obter a certificação em Boas Práticas no Combate à Violência Contra as Mulheres, concedida pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), em parceria com o Instituto Nós Por Elas (NPE).A empresa, que é co-liderada por uma mulher, mas formada, em sua maioria, por homens, identificou uma oportunidade para contribuir com o debate, incentivando um ambiente de trabalho mais seguro e igualitário.“Esse é um dos segredos de sucesso, um time multifuncional, de várias idades, sexos, etc. Nós já tivemos motoristas de caminhão e soldadoras. Hoje, nós temos mulheres trabalhando na fábrica, na inspeção, na supervisão, é muito aberto”, conta a empresária.Para Neide, oferecer bem-estar ao trabalhador representa um investimento, não um custo: “Nós estamos vestidos e não nus, porque alguém plantou e fez a fibra acontecer, enquanto o outro produziu o que estamos vestindo. Como é que eu vou botar isso na cabeça das pessoas? Não tem como você sobreviver sozinho nesse planeta. Eu posso te provar que a sua última linha vai aumentar se você investir nos lugares certos. Vai por mim que é sucesso”.

Como a atualização da NR-1 ajuda empresas e trabalhadoresApesar de ser uma obrigação legal, a NR‑1 traz ganhos estratégicos relevantes para os trabalhadores e também para as empresas que se adaptam de forma consistente, conforme a advogada trabalhista Izabella Soares.O principal ganho para as empresas é previsibilidade e segurança jurídica. De acordo com ela, ao estruturar a gestão dos riscos psicossociais, a empresa: diminui o risco de passivos trabalhistas e fortalece sua defesa em fiscalizações e ações judiciais.“O impacto vai além do jurídico. Ao qualificar a forma como o trabalho é organizado e vivido, a norma impulsiona uma melhoria concreta na qualidade do ambiente de trabalho, promovendo relações mais claras e equilibradas, redução de ruídos, conflitos e sobrecarga, maior percepção de justiça, reconhecimento e apoio”, diz a advogada.Segundo a advogada, as empresas que tratam esses riscos de forma madura tendem a reduzir absenteísmo e afastamentos, além de fortalecer reputação e governança e engajar mais pessoas de forma consistente. “Cria-se um ambiente que favorece não apenas desempenho, mas produtividade sustentável — aquela que se mantém no tempo, sem gerar desgaste, adoecimento ou ruptura”, afirma.O trabalhador, por sua vez, ganha proteção formal sobre como o trabalho impacta sua saúde mental. A NR‑1 não é apenas uma norma de compliance — é um instrumento para organizar o trabalho e sustentar resultados de forma mais segura e estratégica.“A NR‑1 não foi criada para aumentar produtividade. Ela foi criada para reduzir riscos ocupacionais. No entanto, quando esses riscos — especialmente os psicossociais — são bem gerenciados, a produtividade tende a ser uma consequência natural. Isso acontece porque fatores que impactam diretamente a performance passam a ser tratados, como: sobrecarga e desorganização do trabalho, falhas de comunicação, liderança despreparada e conflitos recorrentes”, diz a advogada.Segundo ela, ambientes menos tensionados tendem a favorecer a concentração e o relacionamento entre as equipes. “O ganho não é ‘fazer as pessoas produzirem mais’, mas sim remover obstáculos estruturais que comprometem a performance. E esse é o principal avanço da norma: mostrar que um ambiente saudável não é custo — é fundamento de resultado sustentável”, conclui.

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