O zagueiro Victor Gabriel, do Internacional, recebeu uma sanção do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) devido a uma infração grave. O cartão vermelho direto foi aplicado em um lance que resultou na fratura da perna esquerda do meio-campo Gabriel Pec, do Cruzeiro, durante um jogo do Campeonato Brasileiro. A peculiaridade da penalidade, que se estende até a recuperação do jogador adversário, adiciona uma camada de seriedade ao julgamento.
Victor Gabriel terá sua suspensão mantida enquanto Gabriel Pec estiver em processo de recuperação. A decisão, tomada pela sexta comissão disciplinar, estabelece um limite de 180 dias, conforme as diretrizes do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). A defesa do atleta ainda possui a prerrogativa de recorrer da determinação.
O curso do julgamento experimentou uma reviravolta significativa quando se descobriu que o Internacional havia apresentado como evidência um arquivo de áudio falso, que erroneamente se atribuía ao sistema de Árbitro de Vídeo (VAR). A inclusão desse material questionável trouxe um novo direcionamento ao processo, que antes parecia caminhar para uma punição mais convencional.
A princípio, Victor Gabriel foi penalizado com a pena máxima prevista no artigo 254 do CBJD, que consiste em seis partidas de suspensão. Contudo, essa sanção foi complementada pelo parágrafo terceiro do mesmo artigo, determinando o afastamento do jogador até que Gabriel Pec retorne aos treinamentos, respeitando o limite máximo de 180 dias.
Victor Gabriel compareceu pessoalmente ao STJD para a sessão de julgamento. Durante o processo, enquanto os auditores discutiam o incidente e ele prestava seu depoimento, o zagueiro demonstrou visível emoção em diversas ocasiões.
A revelação de que um áudio do VAR falsificado havia sido utilizado como prova pelo Internacional veio à tona no decorrer dos votos dos auditores. Antes dessa descoberta, o cenário pendia para a aplicação de uma suspensão de seis jogos, sem a inclusão do parágrafo terceiro que atrela a pena à recuperação de Pec. No entanto, a percepção do áudio alterou os votos, resultando em um placar de 3 a 1 a favor da punição mais severa.
Ao término do julgamento, o advogado que representava o Internacional reconheceu o engano. Ele afirmou que o arquivo foi adicionado de maneira equivocada, mas enfatizou que não houve má-fé na ação.
Detalhes do julgamento no STJD
A comissão responsável negou a solicitação do Cruzeiro para participar do processo na condição de terceiro interessado, mantendo o foco nos argumentos das partes diretamente envolvidas.
A procuradoria solicitou uma suspensão baseada no parágrafo 3º do artigo 254 do CBJD. Esse dispositivo legal permite que o período de afastamento de um jogador seja equivalente ao tempo em que o atleta lesionado ficará afastado dos treinos, com a intenção de balancear a consequência da lesão.
A defesa do Internacional apresentou vídeos não apenas do lance em questão, mas também de outros episódios julgados previamente pelo STJD, que igualmente resultaram em lesões aos atletas que sofreram as faltas.
O principal objetivo da defesa era evitar que a sanção imposta a Victor Gabriel correspondesse integralmente ao tempo de inatividade de Gabriel Pec, buscando uma pena que considerasse outros precedentes e a dinâmica do jogo.
“A gente chama esse parágrafo de Lei de Talião: ‘Olho por olho, dente por dente’. O dispositivo deve ser aplicado quando a atividade empregada pelo atleta fuja dos costumes de uma modalidade”, explicou Rogério Pastl, advogado responsável pela defesa do Internacional.
O advogado colorado fez referência a um caso anterior, analisado pela mesma comissão do STJD, que envolvia uma jogada semelhante. Na ocasião, o meia Eduardo, então jogador do Cruzeiro, e Jamerson, lateral-esquerdo do Vitória, sofreram uma fratura.
No desfecho daquele caso no tribunal, Eduardo foi punido com três jogos de suspensão, sendo que a última partida foi posteriormente convertida em uma transação penal, evidenciando uma abordagem diferente da aplicada a Victor Gabriel.
Rogério Pastl incluiu nas evidências as conversas entre os dois jogadores no Instagram, reproduzindo áudios trocados entre Gabriel Pec e Victor Gabriel. As mensagens demonstravam um pedido de desculpas por parte de Victor e a concessão de perdão por Pec.
No conjunto de provas, foi apresentado um áudio que supostamente era do VAR, mas o conteúdo foi posteriormente identificado como falso. A falha foi percebida apenas durante a fase de votação, após a repercussão nas redes sociais e mensagens recebidas nos telefones dos auditores.
O áudio, de fato, apresentava uma forma incomum de diálogo entre as partes envolvidas, o que não se alinhava com o protocolo estabelecido pela CBF para as conversas na cabine do VAR. Uma consulta ao site da entidade confirmou que não houve divulgação de áudio do VAR referente ao jogo entre Internacional e Cruzeiro.
Os auditores ponderaram a possibilidade de adiar o julgamento. Contudo, o advogado do Internacional interveio, afirmando que poderiam prosseguir com a sessão, solicitando que a prova em questão fosse desconsiderada.
Rogério Pastl, advogado do Internacional, afirmou: “Não se trata de uma prova falsa. Eventualmente pode ter acontecido alguma inadvertência, alguma falta de checagem. Mas em nenhum momento houve algum dolo ou má-fé por parte do Internacional ou da defesa. Vamos tentar esclarecer isso no período que se segue da mesma maneira como sempre atuamos aqui nesse tribunal.”
O depoimento de Victor Gabriel
O zagueiro do Internacional prestou seu depoimento visivelmente abalado e não conseguiu conter o choro durante a sessão no tribunal.
Victor Gabriel afirmou: “Foi sem nenhuma intenção de machucar meu companheiro de profissão, tanto que eu pedi desculpas a ele e coloquei a disposição para ajudar.”
Ele detalhou o lance, explicando: “No momento ali, eu tive a interpretação de que eu chegaria primeiro na bola, como eu cheguei. E como o campo estava bastante liso, molhado, eu acerto um pouco a bola, um pouco da metade da bola para cima. Quando o meu pé acerta a bola ali, acaba que acelera um pouco o meu movimento até pelas condições do gramado. E aí eu não tive tempo de recolher a perna naquele momento e acabou que aconteceu essa entrada mais dura, mas como eu falei, sem nenhuma intenção de machucar o meu colega.”
Palavras de Victor Gabriel sobre o lance
“Eu sempre procurei ser leal”, disse Victor Gabriel, refletindo sobre sua trajetória no futebol e a postura que sempre buscou manter em campo.
“Foi um lance de total infelicidade”, afirmou, sublinhando que nunca teve a intenção de ser violento ou causar dano a qualquer adversário durante as partidas.
“Desde aquela noite, têm sido dias totalmente difíceis para mim”, relatou, expressando o impacto emocional profundo que o incidente e suas consequências tiveram em sua vida pessoal e profissional.

