As profundezas da Terra mantêm uma movimentação contínua de placas tectônicas, mesmo que a superfície pareça estável. Essa atividade subterrânea é a força por trás de fenômenos geológicos de grande impacto.
Um tipo específico de deslocamento, conhecido como “subducção”, foi a causa do tremor que atingiu o oeste da Colômbia na manhã de 10 de agosto de 2026, provocando um forte abalo sísmico.
O terremoto, com magnitude de 7,4, segundo informações do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), teve seu epicentro localizado no município de San José del Palmar, no departamento de Chocó, a uma profundidade considerável de 107 quilômetros.
As autoridades divulgaram que o evento resultou em ao menos 169 mortes, conforme dados da Reuters que citam fontes locais. Além das fatalidades, houve desabamentos de edificações e extensos danos materiais em diversas cidades, incluindo Pereira, Manizales e Cali.
Julio Fierro Morales, diretor-geral do Serviço Geológico da Colômbia, descreveu o ocorrido como “o terremoto mais forte sentido no país na última década”, evidenciando a intensidade do abalo.
A atividade sísmica naquela área, conforme explicou a agência, é um reflexo da dinâmica tectônica natural do oeste colombiano, ligada, entre outros processos, ao movimento da placa de Nazca.
O conceito de “subducção” descreve o processo geológico no qual uma placa tectônica se curva e afunda, deslizando por baixo de outra.
Germán Prieto, professor do Departamento de Geociências da Universidade Nacional da Colômbia, destaca que o território colombiano se situa em uma área de confluência de importantes placas tectônicas: a de Nazca, a Sul-Americana e a do Caribe.
O abalo sísmico registrado em 10 de agosto teve origem no deslizamento da placa de Nazca, localizada no Oceano Pacífico, que se move sob a placa Sul-Americana em direção ao leste, onde a Colômbia está situada, conforme detalhou o professor.
O mecanismo da subducção também explica por que este terremoto não guarda uma relação direta com os dois tremores que ocorreram na Venezuela em 24 de junho.
A Colômbia é uma nação com intensa atividade sísmica, um fator atribuído à convergência das placas tectônicas, que incluem a do Caribe. Essas placas, que compõem a camada externa e rígida da Terra, se contrapõem a um interior mais aquecido.
Prieto, em suas explicações, comparou a estrutura da Terra a um ovo, possuindo um interior maleável e uma casca rígida.
A camada rochosa do planeta, segundo o especialista, se fragmenta como um quebra-cabeça em diversas peças. O movimento e a interação entre essas partes são os responsáveis pela geração dos terremotos.
Terremoto na Colômbia – Reprodução/ Rede Sociais
A profundidade dos abalos sísmicos e sua influência nos danos
Apesar da magnitude significativa, o terremoto que atingiu a Colômbia em 10 de agosto não foi necessariamente o mais destrutivo da história recente do país.
A magnitude, de fato, é apenas uma das variáveis que determinam o poder de devastação de um terremoto.
Outro elemento crucial é a profundidade do evento. Sergio Barrientos, diretor do Centro Sismológico Nacional da Universidade do Chile, explicou que o tremor foi “bastante profundo, o que significa que as ondas chegaram à superfície atenuadas”.
O sismólogo esclareceu que este não se enquadra como um “terremoto de choque entre placas tectônicas”, diferentemente dos que acontecem em locais como Venezuela, Peru, Equador ou Chile, que geralmente possuem focos mais superficiais.
A profundidade foi, inclusive, um dos principais fatores que resultaram no poder devastador do terremoto de 1999 na região cafeeira da Colômbia, com impacto especialmente severo na cidade de Armênia.
Naquele ano, o tremor teve magnitude de 6,2, mas, ao contrário do recente, seu epicentro foi muito mais raso, causando a morte de cerca de 1.200 pessoas, conforme registros oficiais.
O evento de 10 de agosto ocorreu próximo àquela mesma área, mas teve Pereira, localizada a 45 quilômetros de Armênia, como uma das cidades mais atingidas.
A atividade sísmica no oeste da Colômbia é impulsionada pela subducção contínua da placa de Nazca, que avança sob o continente a uma velocidade de 55 a 60 milímetros por ano, acumulando pressão e energia que, eventualmente, são liberadas em forma de terremotos.
O especialista colombiano Germán Prieto detalha que o processo de subducção está intrinsecamente ligado aos limites das placas tectônicas, que podem ser classificados como divergentes, convergentes ou transformantes.
No caso do terremoto de 10 de agosto, o limite entre as placas era convergente, indicando que elas se deslocam em direções opostas e uma delas, tipicamente a oceânica, mergulha sob a outra.
Prieto ainda complementa que esse tipo de fenômeno é uma ocorrência comum em várias regiões do planeta. Ele cita o “Círculo de Fogo do Pacífico” como um exemplo notório de múltiplos limites convergentes e de subducção, diretamente associados à ocorrência de terremotos e a cadeias de vulcões.
Essa vasta região se estende do Chile e Peru até a Colômbia, seguindo pela América Central, Canadá, Alasca, Kamchatka, Japão, Ilhas Marianas, e se encerra na Nova Zelândia e Tonga. Todas essas áreas são caracterizadas por vulcões ativos e frequentes abalos sísmicos.
Existe conexão entre o terremoto na Colômbia e os abalos na Venezuela?
O presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, Feliciano de Santis, afirmou que não há uma relação direta entre o terremoto na Colômbia e os tremores recentes na Venezuela.
De Santis explicou que, embora Venezuela e Colômbia compartilhem as placas Sul-Americana e Caribenha, a ligação entre os terremotos é “muito indireta”.
Ele alertou que não se pode inferir que “toda vez que há um terremoto na Venezuela, haverá outro lá depois”, mesmo com os dois países inseridos em um sistema de placas interconectadas.
Para ilustrar a interconexão das placas, De Santis utilizou a analogia da “casca de uma tangerina que se quebra em vários lugares, e todos os pedaços estão interligados.”
Na Venezuela, segundo o especialista, o sistema de falhas é diferente, e o “sistema colombiano é mais profundo”.
Essa profundidade, inclusive, contribui para a mitigação dos danos, conforme adicionou De Santis. Ele explicou que na Venezuela os sistemas são mais superficiais, com as placas deslizando lateralmente, enquanto na Colômbia há um sistema de compressão onde uma placa mergulha sob a outra.
Em essência, trata-se de um modelo tectônico que difere significativamente.
A Colômbia em meio à atividade sísmica constante
Devido à sua localização estratégica na zona de interação das placas tectônicas de Nazca, Caribe e América do Sul, a Colômbia é reconhecida como uma das nações com maior atividade sísmica na América Latina, com um histórico de grandes terremotos.
Em média, o país registra aproximadamente 2.500 terremotos por mês, o que equivale a cerca de 80 tremores diários.
A maioria desses eventos, de acordo com o Serviço Geológico da Colômbia, apresenta baixa magnitude, sendo imperceptíveis para a população e registrados apenas em relatórios técnicos.
A inclusão do país no Círculo de Fogo do Pacífico, uma vasta região que envolve o Oceano Pacífico e concentra a maior parte da atividade sísmica e vulcânica global, também é um fator relevante.
Entre os eventos sísmicos de maior porte já documentados, destaca-se o terremoto de 31 de janeiro de 1906, com magnitude de 8,8, cujo epicentro foi localizado na costa do Pacífico, entre Colômbia e Equador.
A magnitude da força liberada por esse terremoto foi tamanha que provocou um tsunami que se estendeu por grande parte do litoral pacífico.
Outro evento marcante foi o terremoto de 1979, de magnitude 8,1, ocorrido na costa de Nariño.
Na história recente colombiana, alguns terremotos causaram impactos severos, como o de 2004, com magnitude de 7,2, ou o terremoto de La Vega, em 2012, que atingiu magnitude de 7,1.
Contudo, a magnitude por si só nem sempre define o impacto total. Outros terremotos, com menor potência, provocaram grande devastação no país devido à proximidade com áreas populosas ou à fragilidade das construções.
Exemplos notáveis incluem o terremoto de Armênia em 1999, que resultou em 1.185 mortes, e o terremoto de Páez em 1994, no sudoeste da Colômbia, que também causou mais de 800 óbitos.

