A independência de recomeçar

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Em meio à nova onda migratória de cubanos, Cascavel se consolida como polo de trabalho para estrangeiros e passa a enfrentar um novo desafio: transformar oportunidade de emprego em pertencimento – Foto: IA

Há um movimento redesenhando a paisagem humana de Cascavel. Ele chega em famílias, grupos de trabalhadores e, muitas vezes, por indicação de conhecidos. São pessoas que deixam seus países de origem e encontram em uma cidade do Oeste do Paraná uma possibilidade concreta de começar novamente.

Cascavel conhece esse movimento. Em diferentes momentos, haitianos e venezuelanos chegaram em número expressivo, impulsionados por crises e pela procura de trabalho. Agora, uma nova nacionalidade ganha destaque: a cubana.

A Polícia Federal informou à reportagem do O Paraná que 1.209 cidadãos cubanos têm registro migratório realizado em Cascavel e endereço declarado no município. O número não corresponde necessariamente ao total de cubanos que vivem hoje na cidade, já que há estrangeiros que fizeram o registro em outras unidades da PF e posteriormente se mudaram para cá. Ainda assim, é um retrato expressivo de uma comunidade que ganhou tamanho suficiente para chamar a atenção de quem acompanha a dinâmica migratória local.

Mais do que isso, a própria PF identifica uma mudança recente. O setor de imigração da Delegacia de Cascavel relata aumento no fluxo de cidadãos cubanos e aponta a ocorrência de uma “onda migratória”. A principal razão observada para a escolha da cidade é objetiva: oportunidades de trabalho e perspectiva de empregabilidade no município e na região.

A explicação local encontra eco em um fenômeno que ultrapassa as fronteiras de Cascavel. Em 2025, os cubanos fizeram 41.919 pedidos de reconhecimento da condição de refugiado no Brasil, 55,4% de todas as solicitações daquele ano. Foi a primeira vez que Cuba superou a Venezuela nesse ranking, segundo o Observatório das Migrações Internacionais. O número representou alta de 88,1% em relação a 2024.

A escalada continuou em 2026. Reportagem do jornal El País, publicada no último dia 31 de agosto, aponta que mais de 90 mil pedidos de refúgio de cubanos estão em tramitação no Brasil, sendo cerca de 35 mil apresentados nos primeiros sete meses deste ano. A reportagem relaciona o aumento ao agravamento das condições de vida em Cuba e também a mudanças nas rotas migratórias, diante do endurecimento das políticas dos Estados Unidos e da exigência de visto pela Nicarágua. A Guiana, que mantém entrada sem visto para cubanos, tornou-se uma das portas de acesso à América do Sul.

Por que Cascavel atrai cubanos?

Mas números nacionais não explicam sozinhos por que alguém que deixa Cuba escolhe justamente Cascavel. A resposta começa a aparecer quando se observa o mercado de trabalho.

Na Agência do Trabalhador, os cubanos já não são uma presença pontual. Entre 2024 e 2026, foram registrados 1.744 encaminhamentos de cubanos para oportunidades de emprego: 401 em 2024, 764 em 2025 e 579 em 2026, até agosto. As colocações efetivadas somaram 339 no período: 69 em 2024, 154 em 2025 e 116 em 2026. 

A indústria é, de longe, a principal porta de entrada. Das 339 colocações, 251 ocorreram no setor industrial. Outras 65 foram no comércio, oito em serviços, sete na agropecuária e seis na construção civil, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Trabalho enviado à reportagem.

Para quem chega, Cascavel representa a procura por uma oportunidade. Para quem emprega, o trabalhador estrangeiro começa a representar parte da resposta a uma necessidade concreta de mão de obra.

Acolhimento e integração dos imigrantes

A gerência da Agência do Trabalhador relata que, neste ano, cerca de 60% da procura por vagas na unidade tem sido feita por imigrantes de diferentes nacionalidades. Segundo ela, as empresas têm se mostrado receptivas. O principal obstáculo para a contratação, porém, é a comunicação: muitos candidatos ainda têm dificuldade para compreender o português.

É justamente nesse ponto que a história deixa de ser apenas econômica.

Na Cáritas de Cascavel, o coordenador Valdecir Santana relata que a instituição atende, em média, cinco famílias cubanas por dia para auxiliar na documentação. O trabalho inclui regularização, orientação e, quando necessário, apoio com alimentos, roupas, cobertores e móveis. A entidade também auxilia trabalhadores estrangeiros com intérpretes em entrevistas de emprego.

A demanda por acolhimento mostra que migrar não termina quando se consegue um documento ou uma vaga. Depois do emprego vêm a moradia, a escola dos filhos, o acesso aos serviços públicos, a compreensão das regras e costumes e, principalmente, a construção de vínculos.

Desafios e políticas públicas para migrantes

A Prefeitura de Cascavel informa que a questão migratória já alcança diferentes áreas das políticas públicas. As principais demandas envolvem documentação, trabalho e renda, assistência social, saúde e educação. Crianças migrantes matriculadas na rede municipal também trazem desafios de adaptação e comunicação entre família e escola.

Segundo dado consolidado pelo Ipardes referente a 2024, Cascavel tinha 2.753 migrantes internacionais residentes. O município aparecia como o segundo do Paraná nesse indicador, atrás apenas de Curitiba, com 6.991. Foz do Iguaçu tinha 2.477.

É importante não confundir esse número com os registros migratórios acumulados. O Panorama Geral das Migrações no Paraná contabiliza 18.048 registros em Cascavel, mas essa base não significa que todas essas pessoas permaneçam atualmente no município. O próprio governo estadual aponta Cascavel como um dos principais polos migratórios do Paraná.

Outro indicador ajuda a enxergar a mudança. Dados do Cadastro Único fornecidos pela Prefeitura ao O Paraná mostram que o número de cubanos cadastrados passou de 182 em junho de 2024 para 430 em junho de 2025 e chegou a 652 em junho de 2026. No mesmo período, a presença de venezuelanos continuou muito superior, com 8.442 pessoas cadastradas, enquanto os haitianos somavam 939.

A fotografia, portanto, não é de uma nacionalidade substituindo outra. É de uma cidade que, ao longo dos anos, incorporou diferentes ondas migratórias e agora recebe um novo fluxo, o cubano.

A importância da independência e integração

A universidade também começa a perceber que a transformação não é passageira. O Programa de Ensino de Línguas da Unioeste em Cascavel já ofereceu Português para Estrangeiros em 2009, mas a procura era pequena e o curso não teve continuidade. Agora, diante de uma realidade diferente, o PEL planeja voltar a oferecer cursos a partir de 2027 e iniciou tratativas para que Cascavel se torne polo aplicador do Celpe-Bras, exame oficial de proficiência em língua portuguesa.

A iniciativa revela uma questão central: a língua é uma das primeiras fronteiras que o imigrante encontra depois de chegar. Não basta existir emprego se o trabalhador não consegue compreender uma entrevista. Não basta matricular uma criança se família e escola não conseguem se comunicar. Não basta morar em uma nova cidade se ainda não é possível participar plenamente da vida dela.

É nesse ponto que a palavra “independência”, tão presente no calendário brasileiro de 7 de setembro, ganha outro sentido.

Para quem deixa Cuba, Venezuela ou Haiti, migrar pode representar a busca por autonomia, segurança, trabalho, melhores condições de vida ou a possibilidade de escolher onde construir o futuro. Independência, nesse contexto, não é apenas uma data histórica. Pode significar ter condições de sustentar a própria família, trabalhar, estudar e decidir sobre a própria trajetória.

Mas a independência de quem chega também depende da capacidade de uma cidade de abrir espaço para que esse novo morador deixe de ser apenas mão de obra e se torne parte da comunidade.

Cascavel parece ter descoberto uma equação econômica nessa relação. Há mais de 1,2 mil cubanos registrados com endereço no município, milhares de outros migrantes de diferentes nacionalidades, empresas em busca de trabalhadores e uma economia que continua gerando oportunidades. A questão agora é outra: o que acontece depois que a vaga é preenchida?

A resposta passa pela integração.

A nova onda cubana chega a uma Cascavel que já aprendeu, ainda que de maneira gradual, a conviver com diferentes sotaques, costumes e histórias. A cidade começa a perceber que acolher não é apenas oferecer emprego. É permitir que quem chegou consiga compreender, participar e construir vínculos.

Talvez seja esse o significado mais concreto de uma cidade que se transforma: não apenas crescer em número, mas ampliar as possibilidades de quem escolheu chamá-la de lar.
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